domingo, 19 de maio de 2013

Frank Brito: 2 Pedro 2:1 e 2:20-22



PARTE 1: PODEM SE PERDER AQUELES QUE O SENHOR COMPROU?


“E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição”. (II Pedro 2:1, Almeida Corrigida e Fiel)

Este é um texto frequentemente usado para defender que um verdadeiro salvo pode acabar perdendo sua salvação. Pois o texto fala de “falsos doutores” que “negarão o Senhor que os resgatou“. Isso não significa que eles já foram uma vez salvos e deixaram de ser por meio de suas “heresias de perdição”?

O primeiro problema aqui, ao meu ver, é que a Almeida Corrigida e Fiel não deveria ter usado a palavra “resgatou”. A palavra traduzida como “resgatou” neste verso é a palavra ἀγοράζω – agorazo no grego. De fato, agorazo pode se referir a resgate. Mas, neste contexto específico, a tradução mais adequada seria “comprar”, não “resgatar”. A tradução deste verso na King James Version em inglês é melhor, pois usa o verbo “bought” que é “comprou”:

“But there were false prophets also among the people, even as there shall be false teachers among you, who privily shall bring in damnable heresies, even denying the Lord that bought them, and bring upon themselves swift destruction”. (II Pe 2:1)

É assim que a palavra é traduzida pela própria Almeida Corrigida e Fiel em outros textos:

“Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra (ἀγοράζω – agorazo) aquele campo”. (Mateus 13:44)
“E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a (ἀγοράζω – agorazo)“. (Mateus 13:46)
“E, sendo chegada a tarde, os seus discípulos aproximaram-se dele, dizendo: O lugar é deserto, e a hora é já avançada; despede a multidão, para que vão pelas aldeias, e comprem (ἀγοράζω – agorazo) comida para si”. (Mateus 14:15)
“Aconselho-te que de mim compres (ἀγοράζω – agorazo) ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas”. (Apocalipse 3:18)

II Pedro 2:1, então, diz simplesmente que “o Senhor que os comprou“. Mas isso não é equivalente a dizer que eles foram convertidos e salvos pelo Senhor. Por meio dos méritos adquiridos na cruz, Jesus Cristo “comprou” todos os homens, sem exceção, não somente a salvação eterna dos eleitos. É por isso que tudo e todos Lhe pertencem, sendo Ele o Senhor de tudo e de todos:

“Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão“. (Salmo 2:6-8)
“E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra”. (Mateus 28:18)
“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai”. (Filipenses 2:5-11)

Os eleitos pertencem a Cristo de uma maneira especial porque eles foram comprados por Cristo para a salvação eterna. Mas, de maneira ampla, tudo e todos pertencem a Jesus Cristo, que adquiriu “todo o poder no céu e na terra” (Mt 28:18), autoridade até mesmo sobre “falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição” (II Pe 2:1). Quanto aos que Ele comprou para a salvação eterna, Cristo falou claramente: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão“. (Jo 10:27-28)


PARTE 2: O CÃO VOLTOU AO SEU PRÓPRIO VÔMITO

“Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro. Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado; Deste modo sobreveio-lhes o que por um verdadeiro provérbio se diz: O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama”. (II Pedro 2:20-22)

Na [última parte], comentei sobre outro texto de II Pedro que é frequentemente usado para defender que um verdadeiro salvo pode acabar perdendo sua salvação. II Pedro 2:20-22 também é frequente usado para defender o mesmo. O texto fala daqueles que escaparam “das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo” e depois foram “outra vez envolvidos nelas e vencidos”. Isto não é claramente a descrição de um salvo que perdeu sua salvação? Na verdade, quando entendemos o verdadeiro sentido de II Pedro 2:20-22, somos levados a concluir justamente o contrário, que é necessário ser um falso convertido para acabar se desviando para a perdição eterna.

Para entender o verdadeiro sentido das palavras de S. Pedro, temos que começar observando que ele cita passagens de outros textos bíblicos. Para entender o argumento de Pedro temos analisar estas passagens que ele cita em seus respectivos contexto. Primeiro, Ele cita as palavras do Senhor conforme se encontram nos Evangelhos de S. Mateus e S. Lucas, “tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro”:

“Ora, havendo o espírito imundo saído do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o encontra. Então diz: Voltarei para minha casa, donde saí. E, chegando, acha-a desocupada, varrida e adornada. Então vai e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entretanto, habitam ali;e o último estado desse homem vem a ser pior do que o primeiro“. (Mateus 12:43-45; Lucas 11:26)


Aqui Jesus fala de um homem que teve um demônio expulso dele. Ele era endemoniado e deixou de ser. Ele foi espiritualmente liberto do poder que aquele demônio exercia sobre ele. Mas Cristo diz que o demônio, não conformado com o fato de ter sido expulso, decidiu voltar: “Voltarei para minha casa, donde saí. E, chegando, acha-a desocupada, varrida e adornada“. Quando Jesus diz que a casa estava “varrida e adornada”, Ele estava se referindo à libertação espiritual pela qual aquele homem tinha passado. Mas, ao mesmo tempo, a casa estava “desocupada”. O antigo inquilino havia sido expulso, mas, depois disso, ninguém passou a habitar na casa. Foi isso o que levou o demônio a levar “consigo outros sete espíritos piores do que ele” para morar ali. Se a casa não estivesse desocupada, ele não poderia voltar e muitos menos levar mais sete com ele. Como está escrito:

“Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dEle“(Rm 8:9).
“Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós” (I Co 3:16)?

Aquele homem havia, em certo sentido, sido liberto por Deus. O demônio, afinal, havia sido expulso dele. Pela expulsão daquele demônio, ele havia, nas palavras de S. Pedro, “escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo” (II Pe 2:20) e é por isso que sua casa estava “varrida e adornada”. Mas, ainda assim, ele não era um verdadeiro salvo. Apesar dele ter sido externamente liberto, o interior sua casa continuava “desocupada”, isto é, o Espírito de Deus não habitava nele e “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dEle” (Rm 8:9).
Os ímpios, que nunca foram salvos, podem passar por uma experiência externa de libertação espiritual. Eles jamais creem de todo coração e, portanto, jamais se tornam habitação do Espírito Santo. Apesar tisso, eles ainda podem ser beneficiados espiritualmente por Jesus Cristo de muitas maneiras. Um homem endemoniado pode ser liberto do poder desse demônio sem ser salvo por Jesus Cristo. Com base nesta libertação, ele pode vir a abandonar determinadas práticas que faziam parte de sua vida por influência daqueles demônios.

Pensemos, por exemplo, na situação de uma mulher verdadeiramente cristã que é casada com um marido bêbado e preguiçoso. Ele faz com que a família inteira passe por sérios problemas. A esposa sempre ora por ele. É possível que, por consideração à esposa que é uma cristã fiel, Deus liberte o marido da bebedeira e da preguiça e faça que ele se torne um marido sóbrio e trabalhador. É possível que Deus até o faça frequentar a igreja por um tempo. Mas isso, por si só, não significa que ele estará convertido, ainda que ele tenha sido espiritualmente liberto por Deus de alguns de seus vícios. Ímpios podem passar por libertações externas sem passar por uma conversão genuína.

É sobre isso que Jesus falou Mateus 12:43-45 e este foi o texto que S. Pedro citou quando falou daqueles que “depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro” (II Pe 2:20). O texto que S. Pedro cita logo em seguida, do livro de Provérbios, comprova que é sobre isso que ele de fato estava falando:

“Deste modo sobreveio-lhes o que diz este provérbio verdadeiro; Volta o cão ao seu vômito“. (II Pedro 2:22)
“Como o cão que torna ao seu vômito, assim é o tolo que reitera a sua estultícia“. (Provérbios 26:11)

Quando Pedro fala do cão tornando ao seu vômito, ele esta se referindo ao tolo reiterando a sua estultícia. Ou seja, ele não era um sábio que se tornou tolo, mas ele já era tolo e ele reitera aquilo que ele já era. Ele não era um salvo que se tornou perdido, mas era um perdido que, ao se desviar, confirmou aquilo que ele realmente era.

Essa é a mesma ideia da comparação que ele faz com o porco: “e a porca lavada volta a revolver-se no lamaçal” (II Pd 2:22). O argumento de S. Pedro aqui é que a porca, mesmo sendo lavada, acabará querendo voltar para a lama. Essa é sua “natureza”. Da mesma forma, impios podem passar por libertações externas sem passar por uma conversão genuína. Ímpios podem ser “lavados” externamente, mas continuam com a mesma natureza e por isso voltam para a lama.
S. Pedro, então, longe de ensinar que um verdadeiro salvo pode acabar perdendo sua salvação, ensina justamente o contrário, que é necessário ser um falso convertido para acabar se desviando para a perdição eterna. É preciso ser um “porco” ou um “cão”. É preciso que casa esteja vazia, ainda que “varrida e adornada”.


Nota do blog:  Ressaltação em negrito original do texto.  Ressaltação em sublinhado adicionado. Título da postagem " 2 Pedro 2:1 - Parte 1" adicionado.

2 comentários:

  1. Se permite uma crítica:

    Sobre o trecho dos demônios, seguindo a alegoria, é certo que a casa estava adornada porque alguém a adornou. Então, para ela estar vazia e adornada, é porque o antigo adornador abandonou a casa. Assim, o trecho seria mais útil ao 'não-perseverantista'.

    Além disso, esta parábola não parece ter uma aplicação para pessoas, mas para 'a geração maligna e adúltera' - a nação de Israel. Como preterista, interpreto isto como sendo referente ao julgamento que Jerusalém sofreu em 70 AD. Assim sendo a parábola faz mais sentido: Deus foi o provedor de Israel, aquele que coroou um povo para Si - aquele que adornou a casa. Mas este povo O rejeitou, chegando a matar Seu filho. Como punição, Deus abandonou Israel aos romanos, que destruíram-na em 70 AD.

    Sobre o restante, não creio ser convincente o suficiente. Afinal, ainda não conheço bem as teorias acerca da 'graça evanescente' - quando Deus arranca os demônios da vida da pessoa, e até a faz participante dos dons espirituais, mas não a regenera e nem lhe entrega o dom da perseverança.

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  2. Crédulo,

    vc disse: "Sobre o trecho dos demônios, seguindo a alegoria, é certo que a casa estava adornada porque alguém a adornou. Então, para ela estar vazia e adornada, é porque o antigo adornador abandonou a casa. Assim, o trecho seria mais útil ao 'não-perseverantista'."

    Mas quem a adornou, de acordo com o texto, não foi o próprio demônio que habitava nela? "Ora, havendo o espírito imundo saído do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o encontra. Então diz: Voltarei para minha casa, donde saí. E, chegando, acha-a desocupada, varrida e adornada".

    vc disse: "Além disso, esta parábola não parece ter uma aplicação para pessoas, mas para 'a geração maligna e adúltera' - a nação de Israel. Como preterista, interpreto isto como sendo referente ao julgamento que Jerusalém sofreu em 70 AD".

    Eu acho que mesmo que a intenção de Jesus fosse aplicar a história à nação de Israel, ainda assim, baseado nos exorcismos que Cristo realizava em seu ministério, parece que a história é realista.

    Uma coisa interessante: o Frank Brito também é preterista (parcial, como eu acho que você é). Acredito que ele apreciaria seu comentário no blog dele.

    Valeu por passar por aqui. Deus te abençoe ricamente!!!

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