quinta-feira, 31 de março de 2011

Norman Douty: Cristo Morreu Somente Pelos Eleitos? (Livro)

Prólogo


O autor de A Morte de Cristo, em que ele trata a questão, “Cristo morreu apenas pelos Eleitos?,” responde com um sonoro, “Não!” Ele argumenta talentosa, lógica e biblicamente que Cristo morreu por todos os homens. A Bíblia não, ele mantém, ensina a Expiação Limitada. Anteriormente, ele esteve inclinado a observar esta doutrina como um tanto inócua. Entretanto, sua abrangente investigação o tem levado a olhar para ela como injuriosa. Mas ele não é nenhum universalista ou modernista. Ele é bíblico, evangélico, e moderadamente calvinista.

O sr. Douty acredita na predestinação e eleição. Deus elegeu eternamente à salvação aqueles que são salvos, mas passou de lado do resto dos homens. Os não-eleitos estão perdidos, entretanto, não por falha de Deus, mas por sua própria má vontade de se arrepender e crer. Cristo morreu pelos perdidos assim como pelos salvos. Esta posição encoraja o evangelismo e as missões.

Os leitores irão gostar do espírito pacífico, os abundantes argumentos, a exegese de muitas passagens bíblicas, e as numerosas citações de teólogos renomados. Estou feliz por recomendar de todo o coração este livro muito bem escrito.


Faris D. Whitesell,

por 40 anos Professor de Homilética, Evangelismo e Teologia Prática

Northern Baptist Theological Seminary,

Oakbrook, Illinois.


Prefácio à Segunda Edição


Sempre dá satisfação a um autor saber que alguma produção sua teve todas as cópias vendidas, e vários pedidos para sua republicação. O que lhe dá maior satisfação é descobrir das pessoas que elas estão sendo ajudadas pelo que ele tem escrito. Mas sua maior satisfação vem de ouvir que alguns, que anteriormente aderiram ao que consideram uma opinião equivocada, têm revisado seus conceitos, e agora firmemente defendem o que consideram ser a verdade de Deus.

Não parabenizo a mim mesmo pelo fato do irmão que gentilmente editou a primeira edição deste pequeno livro, mudou de opinião sobre o assunto aqui tratado, pois sua mudança pode ter sido induzida por alguma outra influência. Mas eu me regozijo pelo fato de, embora ele pensava que a Bíblia não era inteiramente clara quanto à extensão da Expiação, ele agora, usando a sua própria expressão, apoia “ex animo” (de coração) aos 39 Artigos de Fé Anglicanos. O 31º destes Artigos declara que “a oferta de Cristo, uma vez feita, é a perfeita redenção, propiciação, e satisfação pelos pecados de todo o mundo, tanto originais como atuais.” Ele próprio me informou disto em uma carta datada de 24 de julho de 1973.

Ainda que eu não possa informar que eu tenha visto qualquer crítica de meu livro, feita pelos defensores da Expiação Limitada, que têm mostrado apreciação pelo imenso e consciencioso trabalho empregado nele, desejo elogiá-los por sua rejeição da opinião de que a justificação de nós, pecadores, pode ser creditada ao mérito humano. Eu me alegro em sua ênfase na imperiosidade do sacrifício expiatório de Cristo, e na imputação de Sua justiça imaculada, para a obtenção desse fim. Temos mais em comum do que temos em disputa.

Alguns críticos têm sido extremamente antagônicos, até abusivos. Outros têm tratado minha produção com um certo desprezo, particularmente o irmão cuja inconsistência eu saliento no Apêndice. Ele fez o que podia para desencorajar a leitura de meu livro. Entrego todos estes homens insociáveis nas mãos de Deus a Quem todos nós devemos um dia dar conta. Não darei motivos para alguém me acusar de grosseria de qualquer espécie, nem de aversão a reconhecer tanto o talento e a boa-vontade de muitos que têm sustentado a opinião oposta.

De meu conhecimento, nenhum objetor tem se apresentado para lidar com meu livro de um modo abrangente. Alguns pontos têm sido abordados por um jovem, por 50 anos meu aluno. Ele tem me acusado de ameaçar “a unidade da relação trinitariana” (enquanto ignora minha expressa refutação de tal coisa); de usar de “palavras de duplo sentido na área teológica” (embora deixa de prestar estrita atenção à uma distinção importante que fiz, e ele até emprega um argumento que vai contra sua posição ao invés da minha); de ser “totalmente sem autoridade bíblica” (apesar dele mesmo não oferecer nenhuma); de confinar “sobre o erro da Teoria Governamental da expiação” (embora ele negligencia o fato de que eu tinha claramente afirmado as duas principais doutrinas que Grotius negou); de ensinar que “a salvação não é da graça” (onde ele opõe sua dedução de minhas repetidas afirmações); de apresentar uma “brincadeira de amarelinha exegética” sobre 1Jo 2.2 (a mesma acusação podia ser feita contra o Apóstolo Paulo por escrever 2Co 5.18-20!); de ser “um hipotético universalista calvinista,” nada menos (em qual categoria ele necessariamente inclui os 70 eminentes Líderes da Igreja através dos séculos que eu listo no Capítulo X); e de ter algumas dúvidas sobre a onipotência de Deus (visto que eu, como eles, defendo um calvinismo modificado).

O sub-título do livro foi alterado. Não foi eu, mas meu editor, que forneceu as palavras, “Um ensaio que responde a questão: Cristo morreu somente pelos eleitos?” Tudo que eu posso dizer é que A Morte de Cristo é um ensaio que considera essa questão. Não farei alegações extremas, ainda que esteja completamente persuadido da exatidão de minha posição.

E agora por amor a todos os que defendem a opinião oposta, eu novamente submeto o que segue ao Senhor da glória, Cuja generosidade com Seus inimigos eu desejo proclamar. Eu somente anseio honrá-lo, e encorajar todos os homens a tomar refúgio debaixo de Suas asas redendoras.

Norman F. Douty

Novembro, 1977


Capítulo I  


Introdução


O Calvinismo é um sistema de doutrina, formulado subseqüentemente ao tempo do grande reformador francês, João Calvino (1509-1564), e que consiste, presumidamente, do conteúdo de seu ensino. Os “cinco pontos do Calvinismo” são comumente representados pelas cinco letras da palavra TULIP. T significa Depravação Total; U Eleição Incondicional; L Expiação Limitada; I Graça Irresistível; e P a Perseverança dos Santos.

“Calvinismo Moderado,” apresentado no seguinte ensaio, denota o sistema que subscreve a apenas quatro destes pontos, a exceção sendo o ponto central, Expiação Limitada. Ele também cuidadosamente define os outros, evitando os extremos que são muitas vezes encontrados entre os “calvinistas puros.”

Por Total Depravação queremos dizer que todas as faculdades da alma foram adversamente afetada pelo pecado – não que elas foram completamente arruinadas por ele. Assim nós negamos que Total Depravação seja o mesmo que Total Corrupção, uma situação que aparece somente em certas pessoas como o Diabo.

Por Eleição Incondicional queremos dizer que quando Deus, na eternidade passada, escolheu certos indivíduos para salvação, não foi por causa de alguma coisa prevista neles; mas isto não significa que Sua ação foi por capricho, pois Ele agiu por princípio, embora esse princípio seja desconhecido para nós. Além disso, nós mantemos que ninguém é eternamente perdido porque não foi eleito, mas somente por causa de seu próprio pecado. Certamente Deus não sentenciou arbitrariamente ninguém para uma morte sem fim.

Por Graça Irresistível queremos dizer que a graça que Deus exerce ao trazer um pecador ao arrependimento e fé, é verdadeiramente eficaz; em oposição àqueles que mantêm que ela praticamente força a vontade humana a obedecer. Esta graça induz a vontade do homem para mudar da resistência à submissão, de tal modo a deixar sua operação perfeitamente livre.

Pela Perseverança dos Santos queremos dizer que aqueles que foram regenerados, por causa da obra do Espírito neles, certamente perseguirão um curso de santidade (embora ocasionalmente desviem-se dele), em oposição àqueles que ensinam que o cristãos estão eternamente seguros, não importa o que possam fazer. Negamos que Segurança Eterna tenha relação com viver em pecado.

Que Cristo morreu apenas por aqueles que foram eleitos por Deus na eternidade passada, e que eles serão salvos nas épocas por vir, é a posição considerada de muitos notáveis teólogos – o Dr. John Owen (1616-1683), por exemplo. Ninguém inteligente depreciaria tais homens, entretanto eles podem ser perfeitamente persuadidos de que a posição que eles tomaram é injustificada. Duas vezes eu ouvi um dos meus favoritos pregadores, o falecido Dr. Peter Eldersveld, dizer no programa de rádio “The Back to God Hour,” que o mundo não carrega nenhuma responsabilidade pela morte de Cristo, pois Ele sofreu pelos pecados dos eleitos apenas. Uma número de pessoas tem ido tão longe a ponto de negar – alguns implicitamente, alguns explicitamente – a salvação daqueles que não aceitam a doutrina da Expiação Limitada, ou, como alguns preferem chamá-la, Redenção Particular.

Muito estranhamente, embora eu tenho ouvido os defensores desta posição expressarem preocupação pela salvação dos membros de suas famílias, nunca os ouvi ainda levantar uma questão quanto a se estes membros estavam entre as pessoas por quem Cristo sofreu. Parece ser tomado por certo que seus famíliares não salvos estavam inclusos. Isto é compreensível vindo daqueles cuja teologia do pacto lhes assegura que toda a descendência dos cristãos serão salvos [b1], e daqueles que acreditam na regeneração batismal e na segurança eterna; mas é inexplicável vindo de outros. Visto que Abraão teve um Ismael, e Isaque um Esaú, e “nem todos os que são de Israel são israelitas” (Rm 9.6)[1]; e visto que foram descendentes destes três patriarcas que crucificaram o Filho de Deus e O humilharam publicamente, é seguramente possível que algumas das crianças dos defensores da Expiação Limitada possam ser reprovadas, por quem, eles dizem, Cristo não morreu.

Todavia, pregadores da Expiação Limitada continuam dizendo que Cristo morreu apenas pelos eleitos. Eu sei muito bem que eles reconhecem que a Bíblia nenhuma vez diz aos pecadores para perguntarem sobre esta questão da Expiação Limitada, mas lhes asseguram da salvação se eles se arrependerem e crerem em Cristo. Por que, então, perguntamos, eles não seguem a mesma linha, ao invés de pregar e anunciar aos pecadores que Cristo morreu apenas pelos eleitos? Fazendo assim, eles induzem pessoas contemplativas a querer saber se eles são, ou não são, uma parte desse grupo favorecido. Eles não deveriam reprovar estas pessoas por levantarem a questão que sua própria doutrina criou.

A Escritura nos diz que Cristo morreu por pecadores (não por pecadores penitentes), e pelos ímpios (não por alguns deles).[2] Onde lemos, sequer uma vez, que Ele não morreu por todos eles? Onde somos informados que há alguns por quem Ele não morreu? Em lugar nenhum. Os homens que ensinam de outra forma são geralmente aqueles que dizem que as pessoas não se tornam dispensacionalistas simplesmente estudando a Bíblia, mas somente sendo doutrinadas nessa teoria. A mesma coisa pode, acredito, ser justamente dita a esse respeito. Onde estão os cristãos que chegam a crer na Expiação Limitada através de uma leitura particular das Escrituras? A razão disso é evidente, quando alguém toma ciência dos argumentos empregados para apoiar a doutrina: eles são difíceis demais, complicados demais, engenhosos demais. Eles apelam para um certo tipo de intelecto apenas, não para a generalidade dos cristãos.

Em seu prefácio a um Sermão favorecendo a Redenção Geral (baseado em Jo 6.37-40), o fleumático Thomas Scott (1747-1821), o ex unitariano, disse: 

“O Autor ardentemente deseja que o franco inquiridor da verdade, e todos que ousam pensar por si mesmos, examinem as passagens citadas da Escritura neste Sermão e observem precisamente se elas não constatam completamente sua afirmação. Então deixe-os pesar todos os outros testemunhos da Sagrada Escritura com o mesmo propósito; e finalmente, deixe-os considerar que imensas dores e faculdade inventiva ela exige para explicar uma variedade de textos em consistência com o outro sistema; com que segurança e plausibilidade os oponentes os induzem contra nossa doutrina; e todavia quão naturalmente eles concordam com a posição aqui dada.”[3]

Perguntamos aos defensores da Expiação Limitada: que palavras poderiam ter sido usadas para dar a idéia da Redenção Geral? Como ela poderia ser expressa, se ela não é ensinada em tais textos como estes?: 

“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29) 

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16)

“Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou,” (2Co 5.14-15) e “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Co 5.18) 

“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual se deu a si mesmo em resgate por todos” (1Tm 2.5-6) 

“Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens” (Tt 2.11) 

Cristo provou “a morte por todos” (Hb 2.9) 

“Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1Jo 2.2).

Foi inteiramente pertinente o bispo John Davenant (1572-1641) querer saber: 

“Por qual propósito, pergunto, que o Espírito de Deus, ao falar da morte de Cristo, freqüentemente faz uso de termos gerais, extendendo-a a todos, enquanto ao mencionar a predestinação divina, Ele sempre usa termos restritivos, limitando-a a uns poucos, se a morte de Cristo e a predestinação de Deus com relação à humanidade, tinha uma igual e no total a mesma extensão?”[4]

É surpreendente o quão freqüente esses que apóiam a Redenção Geral têm visões atribuídas a eles que eles não defendem. Até Charles H. Spurgeon (1834-92) foi culpado deste mal quando ele disse que “Expiação Geral é como uma vasta ponte com somente metade de um arco,” que “não assegura a salvação de ninguém.”[5] Ele deveria ter conhecido melhor ao invés de fazer esta acusação contra todos os crentes na Expiação Geral porque alguns pensam dessa forma. É possível defender que a salvação está disponível a todos, e todavia seguramente ser aplicada somente em alguns. Nós não mais acreditamos num “Deus frustrado” do que nossos difamadores acreditam.

Houve um tempo em que eu olhava para esta visão da Expiação Limitada com uma boa medida de tolerância, mas uma melhor reflexão me levou a considerá-la como decididamente prejudicial – uma reflexão sobre a bondade divina, um impedimento para a oferta universal do Evangelho, um obstáculo para a confiança do pecador em Cristo, e (em muitos casos) ela gera dureza naqueles que estão certos de suas próprias inclusões no propósito salvífico de Deus. Conseqüentemente, desejo, antes de deixar este mundo, fazer o quanto puder – com a ajuda de Deus – para mostrar o que estou convencido ser a falácia deste ensino. Não sou tão ingênuo a ponto de esperar que muitos desses que estão afundados nela darão às minhas observações um análise honesta; se somente uma pequena fração deles assim fizer, eu estarei com sorte. O que eu espero é que meus esforços sirvam para aliviar as mentes dos confusos, confirmar as dúvidas dos questionadores, e reforçar as convicções daqueles que já estão certos de que esta noção é contrária à Palavra de Deus.

A fim de evitar mal entendido, eu aqui declaro em poucas e claras palavras o que são minhas próprias crenças sobre este assunto disputado. Eu acredito que Cristo, pela Sua morte, assim lidou com o pecado humano que um caminho virtuoso foi aberto por Deus para receber em Seu favor a totalidade da raça humana. Isto é o que eu chamo de Redenção Geral. Eu não quero dizer que todos os homens serão salvos pela virtude da cruz, nem que a salvação das almas descansa, no final das contas, em suas próprias decisões. Por causa de sua depravação, os homens, de si mesmos, não crerão em Cristo; mas Deus, pela graça, induz alguns a crer, enquanto, pela justiça, Ele deixa o resto persistir em sua perversidade. Assim, embora a provisão da expiação seja ilimitada, todavia a aplicação dela é limitada – mas limitada pelo próprio pecador, não por Deus.

Nesta análise sigo o curso usual, e uso os termos “expiação” e “redenção” alternadamente, significando por eles a provisão de Deus para a salvação de todos os homens, feita pela Sua morte na cruz. Nisto eu me diferencio de William G. T. Shedd (1820-1894), pois ele emprega “expiação” apenas para denotar esta provisão, e “redenção” (também “reconciliação”) para denotar a provisão aplicada. Por exemplo, ele escreve: 

“A expiação é ilimitada e a redenção é limitada,” 

e então acrescenta: 

“Esta declaração inclui todos os textos da Escritura: aqueles que declaram que Ele morreu por todos os homens, e aqueles que declaram que Ele morreu pelo Seu povo.”[6] 

Depois ele escreve: 

“Ao dizer que a expiação de Cristo é limitada em sua aplicação, e que a redenção é particular, não universal, estou querendo dizer que o número de pessoas em quem ela é eficazmente aplicada é um número fixo e definido.”[7] 

E ainda depois: 

“Não há nenhuma reivindicação de justiça ainda não satisfeita; não há nenhum pecado do homem pelo qual uma expiação infinita não tenha sido provida. Todas as coisas estão agora prontas. Por essa razão, a chamada para vir é universal.”[8] 

Estas declarações do grande teólogo presbiteriano americano precisamente expressam minhas próprias opiniões, embora eu não posso concordar com sua definição dos termos (veja, por exemplo, Is 45.22; 2Pe 2.1).[b2] Nota: Shedd reconhece que há textos da Escritura que afirmam que Cristo morreu por todos os homens.

Antecipando, agora, o corpo da análise, pode ser útil esboçar meu tratamento do assunto, e através disso ajudar meu leitor em sua leitura compenetrada. Eu fiz o melhor que pude para lidar com as linhas de argumento empregadas por meus irmãos da Expiação Limitada. Apesar destas linhas serem numerosas e algumas vezes entrelaçadas, pela maior parte elas são desvinculadas uma da outra. Tenho, por essa razão, disposto os vários aspectos no que para mim é uma sucessão organizada, mas eu seria o último a argumentar que minha ordem é a melhor possível.

Me parece ser prudente tratar essas numerosas linhas de argumento no início, e dessa maneira elas são tratadas no capítulo II a V. Então, nos próximos três capítulos (VI a VIII) eu apresento o material exegético, olhando primeiro para algumas passagens no Velho Testamento e os quatro Evangelhos, e então para um número mais amplo em Atos e nas Epístolas. Todas essas passagens exegéticas são dadas em sua ordem canônica. Após estes capítulos, eu lido no IX com um número de outras objeções, além daquelas que aparecem no curso do argumento precedente. Também me pareceu imperativo dar uma lista de alguns defensores da Redenção Geral, e estes aparecem no capítulo X. Ninguém deve cometer o erro de pensar que eu tenho varrido das folhas da história todo o valoroso testemunho a ser encontrado em favor de minha tese. Como eu tenho denominado o capítulo, aqui estão “Alguns Defensores.”

Eu não professo ser capaz de responder todas as objeções e resolver todas as dificuldades associadas a este complexo assunto. Mas eu não sou obrigado a fazer isso, a fim de provar a Redenção Geral. Tudo que sou obrigado a fazer é expor evidência positiva em seu favor. Válida demonstração de uma verdade é possível sem responder todas as objeções e resolver todas as dificuldades. Por exemplo, nós não desafiamos a doutrina da Encarnação porque não podemos explicar o mistério envolto nela. Os registros do Evangelho mostram que Jesus de Nazaré é tanto divino quanto humano, e que isto é suficiente para nós. Da mesma maneira podemos estabelecer várias verdades, ainda que sejamos incapazes de resolver todos os problemas relacionados a elas. Que ninguém, por isso, imagine que ele refuta a Redenção Geral meramente porque ele pode levantar mais questões do que seus defensores pode responder. Há abundante demonstração de que a opinião está correta, e nenhuma quantia de questões inexplicáveis pode tornar incerto o que já tem sido provado ser verdadeiro. Coisas que não são claras nunca podem neutralizar coisas que são.

O leitor encontrará numerosas ocorrências da designação “homens da Expiação Limitada” – expressamente empregada porque imagina-se ser inofensiva. Prova indispustável desta sincera convicção vem do fato de que eu também uso o termo “homens da Redenção Geral.” Mas visto que alguém, cujo bom senso eu demais valorizo, teme que o uso de “homens da Expiação Limitada” muito provávelmente cause uma reação desfavorável, eu quero repudiar a mínima intenção de minha parte de ser desrespeitoso com alguém. Eu não considero aqueles que discordam de mim como sendo desprovido de conhecimento ou piedade.

Uma palavra final: Se alguém objetar para o caráter repetitivo desta análise, deixe-o tratar o assunto por si mesmo. Ele em breve descobrirá que seu tratamento será tão repetitivo quanto o meu, e, se ele realizar qualquer pesquisa, verá que o meu não está mais repetitivo do que aqueles que apóiam a outra concepção.

Notas do blog:

[b1] Isso só é possível por aqueles que sustentam uma deturpada teologia do pacto.

[b2] Os termos de Shedd são cunhados, principalmente, para estarem de acordo com a Confissão de Fé de Westminster e tinham a pretensão de serem termos técnicos para distinguir o sacrificio de Cristo (expiação) da sua aplicação (redenção)

Notas do autor:

[1] Citações são feitas da American Standard Version, salvo quando de outra forma declarado.

[2] Contraste o ensino encontrado no sermão de Spurgeon sobre a “Redenção Particular.” baseado em Mt 20.28, The Treasury of the Bible (Grand Rapids, 1968), Vol. III, p. 294. Também encontrado em Sermons on Sovereignty (Ashland, KY, Baptist Examiner Book Shop, 1959), p. 91. O sermão pregado em 28 Fev. 1858, no Music Hall, Royal Surrey Gardens, London. J. I. Packer cita uma parte deste sermão em seu “Introductory Essay” para a edição da Banner of Truth do livro de Owen, The Death of Death (1959), mas não dá nenhuma referência.

[3] Scott, Theological Works (Edinburgh, 1839), pp. 139f. Prefácio ao sermão pregado na Lock Chapel, 26 Nov. 1786.

[4] Davenant, The Death of Christ (1650; impresso no Vol. II de On the Colossians, ed. Allport, London, 1832), p. 423.

[5] Spurgeon, op. cit., Vol. III, p. 294.

[6] Shedd, Dogmatic Theology (New York, 1888), Vol. II, p. 470.

[7] ibid., p. 474.

[8] ibid., p. 482.


Capítulo II




Duas Questões Importantes


Será nossa tarefa neste capítulo buscar responder duas questões que são comumente perguntadas pelos sérios estudantes da Expiação.


1. DEUS AMA SOMENTE ALGUNS PECADORES?


Arthur W. Pink (1886-1952), cujos escritos têm sido muito influentes entre os batistas calvinistas americanos, sustenta que Deus não ama todo o mundo![1] Ele pergunta, 

“É verdadeiro que Deus ama aquele que está desprezando e rejeitando Seu santo Filho?” 

Nós respondemos: E quanto a Saulo de Társo? Deus não o amou apesar de sua perseguição a Jesus, quando ele respirava ameaças e mortes contra os discípulos? Além disto respondemos: E quanto a Judas Iscariotes? Deus consente que Cristo diga, “Amai aos vossos inimigos,” e então retém Seu próprio amor de Judas? Certamente, Jesus amou Judas.[2] Seu tratamento amoroso com o apóstolo constantemente escondia sua traição dos onze, a ponto de nenhum deles parecer ter suspeitado dele. Ele o colocou no lugar de honra na Última Ceia e fez um apelo final a ele no Getsêmani, chamando-o “Amigo.”[3] Mas o coração de Jesus revelava o coração do próprio Deus; de forma que Deus deve ter amado Judas também. Mas se Deus amou Judas, que pior pecador poder haver para Ele odiar?


Pink acredita que ele confirma sua negação de que Deus não ama todo o mundo citando tais Escrituras como Sl 5.5 (“Detestas a todos os que praticam a maldade”) e Rm 9.13 (“Amei a Jacó, e odiei a Esaú”). Se estes textos significam o que Pink os leva a significar, então Deus deve ter odiado Saulo de Tarso apesar de tudo; todavia Ele o tratou com o mais puro amor. Além disso, Ele não deve ter tido nenhum bem para conceder a Esaú; todavia Ele até o abençoou (Gn 27.39-40; Hb 11.20), e tal benção demonstrou amor por ele (Dt 10.18).

Como, então, devemos entender estes textos? Em resposta podemos dizer: Como devemos entender as declarações de que Deus se arrependeu “de haver feito o homem na terra” (Gn 6.6), e que Ele foi temeroso (Dt 32.27)? Em Nm 23.19 lemos que Deus não é filho do homem “para que se arrependa;” e em muitas passagens que aqueles que nele confiam não devem temer, que implica que Ele próprio não está em perigo, e que por essa razão nada teme. Assim Deus apenas pareceu estar arrependido e pareceu estar temeroso, mas, na realidade, não estava. Suas ações eram tais como em que um homem empregaria se estivesse arrependido ou temeroso, e assim estas emoções foram atribuídas a Ele metaforicamente, mas não devem ser tomadas como propriamente nele. John Owen acertadamente diz: “Atribuir afeições (emoções) propriamente a Deus é fazê-lo fraco, imperfeito, dependente, mutável e impotente.”[4] Assim como não devemos endeusar o homem, também não devemos humanizar Deus.

Somos, conseqüentemente, obrigados a entender o ódio de Deus dos homens como significando nada além do que Suas ações desfavoráveis para com eles. Assim Ele detesta “todos os que praticam a maldade” em que Ele traz punição sobre eles mais cedo ou mais tarde. Mas Ele traz tal punição na calma administração de um governo justo, não no calor de vingança pessoal. Do mesmo modo, Deus odiou a Esaú, tirando dele o lugar na aliança patriarcal concedida a Jacó, uma aliança com respeito a benefícios temporais, não eternos. O verso é usado num sentido comparativo, como em Lc 14.26.

Uma expressão cognata para o ódio divino é a da ira divina – algo freqüente na Escritura. Aqui, também, a antiga máxima teológica se aplica: que as coisas faladas de Deus segundo a maneira dos homens devem ser entendidas dele segundo a maneira de Deus. Owen expõe este princípio, em referëncia à ira de Deus, nos capítulos 4 e 29 de sua Vindiciae Evangelicae, onde ele responde a Biddle, o sociniano. Ele aponta que quando a Bíblia atribui ira a Deus, ela não denota a forte emoção que observamos na raiva humana, mas significa ou Sua justiça interna ou os efeitos externos dela (isto é, punições). 

“Não que Deus esteja propriamente irado,”[5] 

ele diz, e então declara que Deus está somente 

“irado conosco em razão de Sua lei violada.”[6] 

Novamente, ele diz, 

“Que Deus deveria ser concebido como irado à maneira dos homens, ou com qualquer espécie de paixão, é um gritante antropomorfismo – tão mal, se não pior do que atribuir a Ele uma forma corpórea. A ira de Deus é um puro ato de Sua vontade segundo a qual Ele irá efetuar e infligir os efeitos da ira.”[7]  

Em resumo, não há nenhuma animosidade pessoal para com qualquer alma na natureza divina (não pode haver visto que Deus é amor), mas Sua perfeita justiça induz a inflição da punição apropriada sobre os impenitentes.

Owen muito bem diz: 

“Deus ama nossas pessoas conforme somos Suas criaturas, se ira conosco [no sentido definido] conforme somos pecadores.”[8] 

Deus, tendo criado todos os homens, necessariamente os ama; de outro modo, Ele estaria envolvido em contradição. Enquanto eles existirem, se no céu ou no inferno, Ele ama os homens como Suas criaturas; mas aqueles que se rebelam contra Ele são, por simples justiça, reservados à Sua prisão eternamente. O juiz humano ideal não nutre nenhuma atitude amarga para com o homem que ele, em estrita justiça, deve mandar à forca; sua ira não é vingativa, mas vingativa em caráter. Daí, não é, como Pink afirma, “uma distinção sem sentido,” que Deus ama o pecador, embora Ele odeia seu pecado.[9] Até John Gill disse: 

“Deus tanto ama todas as Suas criaturas como tais, nem odeia qualquer uma delas, como assim consideradas” (sobre 1Jo 4.8).

O amor é de diferentes espécies. 

Há o amor que está enraizado na relação: assim o Criador ama as Suas criaturas, e pais amam seus filhos. 

Há o amor de complacência: assim o Pai se alegra em Seu Filho perfeito, e em todos que são dedicados a Ele. 

Há também o amor de compaixão: assim o Pai ama o perdido, e o Filho veio buscá-los. 

É, por essa razão, verdadeiro que Deus não ama a todos no mesmo sentido, mas isto não significa que há alguns que Ele não ama em qualquer sentido. Cristo declarou seu amor pelos mornos laodicenses que Ele estava prestes a vomitar (Ap 3.16, 19).

Quando Pink chama a distinção entre o amor de Deus de complacência e Seu amor de compaixão “uma invenção pura e simples,”[10] ele fornece um outro exemplo de mera afirmação de sua parte. A distinção é constantemente evidente no nosso dia-a-dia. Chame este amor de compaixão do que quiser – piedade ou benevolência ou qualquer outra coisa - o uso de diferentes palavras não pode alterar o próprio fato. Mesmo Pink gosta de distinções não verbalmente expressadas na Escritura, tais como a perfeitamente válida: “todos sem distinção, não todos sem exceção” – embora ele às vezes aplica esta uma em passagens onde ela não realmente se aplica.

Eu deveria mencionar aqui a ênfase de Cristo em Deus como um Pai. Não menos do que 73 vezes Ele fala dele simplesmente como “o Pai.” À parte de seus discursos, a designação é usada 48 vezes no Novo Testamento, perfazendo um total de 121. Do número total de passagens no Novo Testamento em que Deus é chamado “Pai” em uma ou outra relação (358) os escritos do apóstolo João sozinho contêm quase metade (169). Agora, o termo “pai” era, entre os judeus, expressivo de forte afeição (Jr 6.26; Am 8.10; Zc 12.10). Conseqüentemente, podemos facilmente entender por que João falou de Deus como amor. Perguntamos: Pode alguém de forma sustentável defender que tal Deus paternal soberanamente restringiria a aplicabilidade da infinitamente valiosa expiação a somente uma parte da raça humana? A pergunta não responde por si mesma?

Que Deus ama a raça inteira em seu estado caído com o amor de compaixão é, sugiro, a mensagem do Evangelho; e que pensar que Ele odeia qualquer ser humano é uma reflexão terrível sobre Ele. Este amor de compaixão foi mostrado na Cruz, onde o Filho encarnado sofreu por todos os membros da família de Adão, como eu objetivo provar das “Escrituras da verdade.”

Notas:

[1] Pink, The Sovereignty of God (1918, reimpresso Grand Rapids, 1959), pp. 245f.
[2] Que Jesus amou Judas é exposto por Alexander Mclaren em seu primeiro sermão Last Sheaves (mensagens dadas na conclusão de seu pastorado de 45 anos em Manchester). No mesmo sermão, “Christ’s Musts,” p. 1, ele também disse: “Ele não poderia ser o Salvador do mundo, a menos que fosse o sacrifício para os pecados do mundo.” Theodore L. Cuyler, pregador presbiteriano no Brooklyn, chamou Mclaren (batista) “de longe o mais excelente pregador na Grã Bretanha” (Recollections of a Long Life, p. 66).
[3] Cf. A. Edersheim, Life and Times of Jesus the Messiah (London 1898), Vol. II, p. 494.
[4] Owen, Works (ed. Goold, 1850), Vol. XII, p. 110.
[5] ibid., p. 533.
[6] ibid., p. 534.
[7] ibid., Vol. X, pp. 451f.
[8] ibid., Vol. XII, p. 534.
[9] Pink, op. cit., p. 246.
[10] ibid., p. 30n.


2. DEUS DETERMINA TUDO QUE ELE DESEJA?


Muito erro tem surgido da idéia de que o que quer que Deus deseja, Ele determina fazer acontecer. Visto que milhões de almas vão para o inferno, é concluído que Deus quer que elas vão para lá, pois (assim é pensado) se Ele não quisesse, Ele seria frustrado por causa delas irem para lá. Esta opinião é muito comum e é completamente errada.

Somente considere o começo da história humana. Deus disse aos nossos primeiros pais para não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ele queria que eles comessem, ou não queria? Claramente, Ele não queria que eles comessem. Todavia eles comeram dela. Ele ficou frustrado? É claro que não. Ele não ficou frustrado porque, por Sua graça eficiente, Ele poderia ter induzido-os a não comer. Todavia Ele escolheu reter essa graça e permitir a queda. No entanto, a completa responsabilidade por esse pecado pertenceu a Adão e Eva, que tinham graça suficiente para refrear, mas não a usaram.


Toda a história subseqüente fornece ilustrações deste princípio. Tome a declaração em Jr 13.11: 

“Pois, assim como se liga o cinto aos lombos do homem, assim eu liguei a mim toda a casa de Israel, e toda a casa de Judá, diz o Senhor.” 

Por que? 

“Para me serem por povo, e por nome, e por louvor, e por glória.” 

Este bom desejo se realizou? As próximas palavras são “mas não quiseram ouvir.” Deus permitiu que Seu bom objetivo fosse subvertido, não fosse realizado. Um outro exemplo aparece em Mt 23.37: 

“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste.” (Cf. Lc 13.34).

Como Deus poderia ter induzido nossos primeiros pais a não comer da árvore, ele também poderia ter induzido Israel e Judá a ser o que Ele desejava que eles fossem, e os judeus resistentes do tempo de Cristo a terem recebido Seu gracioso ministério de salvação. Mas Ele não escolheu efetuar estes fins desejáveis. Todavia de nenhuma forma Ele queria que o mal sobreviesse a qualquer um. Ele meramente permitiu a violação de Seus desejos a fim de executar um propósito secreto que Ele tinha em mente.

Aplique isto à danação dos pecadores. Em Ez 18.23, 32 lemos: 

“Tenho eu algum prazer na morte do ímpio? diz o Senhor Deus. Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?... Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor Deus; convertei-vos, pois, e vivei.” 

Similarmente no capítulo 33.11: 

“Vivo eu, diz o Senhor Deus, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas sim em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que morrereis, ó casa de Israel?” 

Coloque junto com essas estas passagens: 

Sl 145.9 “O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras” 

Lm 3.33 “Porque não aflige nem entristece de bom grado os filhos dos homens;”  

Mq 7.18: “Ele se deleita na benignidade.”[11] 

Veja também Lc 7.30; 19.44; At 13.46; Rm 10.21; 2Co 2.15; Ap 22.17.

Podemos apontar aqui algumas declarações opostas no capítulo “The Sovereignty of God in Reprobation”[12] do livro de Pink. Ele diz: 

“Deus decretou que os não-eleitos deveriam escolher o curso que eles seguem.” “Ao dar a existência e o nascimento àqueles que Ele sabia que rejeitariam a Cristo, Ele necessariamente os criou para condenação.” “Ele propôs que alguns destes passariam a eternidade no Céu e que outros a passariam no Lago de Fogo.... É claro que Ele designou e ordenou que esta pessoa devesse ser eternamente perdida.... Se há alguns descendentes de Adão aos quais Ele propôs não dar fé, deve ser porque Ele ordenou que eles devessem ser condenados.” “Dele ter deixado alguns homens na incredulidade e impenitência final, seguramente entendemos que foi a Sua eterna determinação assim fazer.... Ele deve ter decretado que um vasto número de seres humanos passaria deste mundo sem serem salvos, para sofrer eternamente no Lago de Fogo.” “Pv 16.4... expressamente declara que o Senhor fez os ímpios para o Dia do Mal; que este foi o Seu desígnio ao lhes dar a existência.” 

Imediatamente após ele diz que as palavras de Cristo a ser dita no Dia do Julgamento, “Nunca vos conheci” (Mt 7.23), significa simplesmente, “Nunca vos amei” (ao invés de, “Nunca determinei minha escolha em você”). A disparidade entre os textos citados nos parágrafos precedentes e as citações feitas neste aqui, deveria alertar os leitores a desafiar alguns dos tratamentos de Pink de Rm 9.17-23, que imediatamente seguem as páginas referidas.

Em consonância com o Velho Testamento a respeito da proclamação da atitude de Deus em direção aos pecadores está a revelação do Novo Testamento. Em Jo 3.17 somos informados que “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.”[13] Ambos Calvino e Ryle entendem Jo 3.17 como eu. Calvino diz: 

“Deus não deseja que sejamos subjugado com destruição eterna, pois Ele tem apontado [ou, ordenado] Seu Filho para ser a salvação do mundo.” 

Cristo confirmou Suas palavras em 12.47b: 

“Eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo.” 

Nestas duas passagens o objetivo agradável do Pai enviar e do Filho vir era exatamente o mesmo: a salvação do mundo. Veja o Expository Thoughts, in loco de Ryle.

Os homens da Expiação Limitada afirmam que o “mundo” nestes textos deve significar somente os eleitos, pois de outra forma o Pai e o Filho estariam frustrados em seus desígnios, visto que todos os homens não se salvam. Mas que a expressão usada nestes dois versos não necessariamente denotam a vontade decretiva das Pessoas divinas, mas somente seu bondoso motivo, é demonstrado pela declaração similar que Cristo fez a Seus inimigos implacáveis em 5.34: “Digo isto para que sejais salvos.” Todavia “salvos” eles não eram. Por que? Porque, como Cristo acrescenta no v. 40, “Não quereis (como no grego) vir a mim para terdes vida.” Novamente, um caso de “mas não quisestes.” Por outro lado, Cristo disse, “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber” (7.17). Que a palavra “mundo” não significa o “mundo dos eleitos” é claro do verso que segue (Jo 3.18), que mostra que ele consiste daqueles que, afinal de contas, não crêem assim como dos que crêem, daqueles que são finalmente condenados assim como daqueles que não são, daqueles que rejeitam Cristo assim como daqueles que O recebem. Um famoso Comentário afirma: 

“Embora a condenação seja para muitos o resultado da missão de Cristo (v. 19), este não é o objetivo da Sua missão, que é puramente salvar.”[14]

Que Cristo deseja a salvação de todos os homens é exposto em um folheto, The Free Offer of the Gospel (1948), preparado pelos dois homens da Expiação Limitada, John Murray e Ned B. Stonehouse, ex-professores no Westminster Theological Seminary, Philadelphia. Eles falam do 

“desejo da parte de Deus para o cumprimento daquilo que Ele não tinha decretado, em outras palavras, um desejo da parte de Deus para aquilo que Ele não tinha desejado decretivamente” 

que é a posição que eu tenho defendido acima. Similarmente, na próxima página, eles dizem, sobre um número de partes bíblicas citadas: 

“Não deve haver lugar para pergunta mas que o Senhor representa a Si mesmo em algumas dessas passagens como ardentemente desejando o cumprimento de algo que Ele não tinha, no exercício de Sua vontade soberana, na verdade decretado que acontecesse.”[15]

Os professores prosseguem com o comentário sobre Mt 23.37, um texto que eu já citei, como uma ilustração do princípio precedente, e afirmam: 

“Nosso Senhor, no exercício de Sua mais específica e exclusiva função como o Deus-Homem, dá expressão a uma vontade ardente de Sua parte que a correspondência da parte do povo de Jerusalém teria provido a condição necessária para a concessão de Seu amor salvador e protetor, uma correspondência, apesar disso, que não era a vontade decretiva de Deus para criar em seus corações.”

Estes autores também consideram que 2Pe 3.9 se refere a todos os homens, qualquer um: Deus 

“é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se.” 

Eles dizem: 

“Nós não cremos que a restrição da referência aos eleitos seja bem estabelecida... a linguagem... mais naturalmente se refere à humanidade como um todo.” 

Em sua Conclusão, lemos: 

“Descobrimos que o próprio Deus expressa um ardente desejo para o cumprimento de certas coisas que Ele não decretou que acontecesse em Seu inescrutável conselho. Isto significa que há uma vontade para a realização do que Ele não tem desejado decretivamente, um prazer em relação ao que Ele não se agradou em decretar.”

Mais uma passagem que é especialmente relevante aqui é 1Tm 2.4, onde somos informados que Deus 

“deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” 

Charles Hodge (1797-1878), em um de seus sermões dado aos estudantes no Princeton Seminary nas tardes de domingo, diz que o texto significa “que Deus deseja a salvação de todos os homens,” isto é, de todos os homens sem exceção. Isto, ele acrescenta, “concorda com o fato que Deus é benevolente, como mostrado em Suas obras, e todavia que Ele permite que muitos pereçam.”[16]

A mesma opinião – que Deus deseja algumas coisas que Ele não efetua – é apresentada por um outro homem da Expiação Limitada, o teólogo escocês do século 19, Thomas J. Crawford. Ele diz: 

“Apesar dos comandos de Deus serem... indicativos do que Deus deseja, aprova, e se alegra, como congeniais à bondade e santidade de Sua natureza moral, eles não são certamente declarativos, ao mesmo tempo, do que Ele fixadamente propôs ou determinou em Seu governo do universo executar. Pois se eles assim fossem, é certo que eles seriam infalível e universalmente obedecidos por todas as Suas criaturas; ao passo que eles são freqüentemente violados, sem qualquer interferência de Sua parte para assegurar sua observância... A verdade é essa, devido ao real estado das coisas no mundo moral enquanto governado pela divina providência, nós necessariamente precisamos reconhecer a distinção entre... o que Deus requer em cumprimento de Suas alegações justas, ou deseja como agradável à Sua santidade e natureza beneficente – e, por outro lado, o que Ele propõe ou determina.”[17]

Agora tudo isto constitui um problema pesado para os defensores da Expiação Limitada: eles concordam conosco na crença que o valor da morte de Cristo foi infinito, visto que Ele foi uma Pessoa divina, e que foi, por essa razão, mais do que suficiente para salvar todos os homens, eleitos e não-eleitos. Mas eles nos dizem que Deus, na eternidade passada, restringiu esse valor infinito apenas aos eleitos, pois, eles dizem, em Sua intenção, a cruz era somente para os pecados dos eleitos. Isto cria uma necessidade deles mostrarem como Deus, desejando a salvação de todo o mundo, poderia ter, no entanto, imposto tal limitação no número de pessoas que seriam beneficiadas. 

O crente na Redenção Geral não tem nenhum problema aqui, pois ele sustenta que Deus, tendo nenhum prazer na morte do ímpio, deixa o valor infinito da morte de Cristo irrestrito em sua aplicabilidade; ele crê que Deus enviou Cristo para morrer por todos da raça de Adão, embora Ele não decretou a salvação final de todos. Dizer que a morte de Cristo é aplicável a todos, embora Ele não morreu por todos, é dizer uma contradição.

Se Cristo morreu com a intenção de que todos fossem salvos, então todos serão salvos. Mas Ele morreu apenas com o desejo de que todos fossem salvos. Então provisão para a salvação de todos deve ter sido feita em Sua morte, ou ela não teria nenhuma relação com a salvação dos não salvos.

Notas:

[11] Veja meu livreto, “The Lovingkindness of the Sovereign God,” obtido nas Reiner Publications, Swengel, PA 17880; por 30 cents.

[12] Pink, op. cit., pp. 100f.

[13] Cf. Jo 11.42: (“para que eles creiam”) com o verso 45 (“Muitos.... creram nele”), mas todavia alguns não creram (v. 46).

[14] Jamieson, Fausset & Brown, Critical, Experimental and Practical Commentary (Lippincott ed., 1864-70), Vol. V, p. 364, col. 2 em Jo 3.17. Veja Testemunho Bíblico I (capítulo VI) para mais informações sobre este texto.

[15] Veja, também, Discussions: Evangelical and Theological de Robert L. Dabney. (Vol. I, pp. 282-318), sobre “God’s indiscriminate Proposals of Mercy.” O teólogo da igreja presbiteriana do sul lida com o assunto de uma maneira similar àquela apresentada pelos professores Murray e Stonehouse.

[16] Hodge, Sermon Outlines (1870), sermão pregado em 1º de março de 1868.

[17] Crawford, Mysteries of Christianity (Edinburgh, 1874), pp. 352f. Veja também seu The Atonement (Edinburgh, 1871), pp. 485f.


Capítulo III  


Quatro Temas Doutrinários 


Será nossa tarefa neste capítulo explorar nosso assunto examinando-o em relação a quatro temas doutrinários.


1. AS ALIANÇAS DE DEUS


É algumas vezes declarado que aqueles que negam a doutrina da Expiação Limitada deduzem um conflito entre as diferentes Pessoas da Divindade. Mas isto é inteiramente sem razão se a posição da Redenção Geral for corretamente expressada.

1. O que mantemos é que a indivisível Divindade entrou em aliança (ou formulou um propósito) na eternidade passada, e que todas as três Pessoas colaborou perfeitamente no tempo para o seu total cumprimento. A real questão é quanto à natureza dessa aliança ou propósito. Mantemos que, de acordo com seus termos, o Pai propôs que o Filho se encarnasse, e, por Sua vida obediente e morte agonizante, provesse uma completa salvação para todos os pecadores; que o Espírito se comprometeu a sustentar a humanidade no Filho no completo curso de Sua árdua tarefa; e que o Filho livremente consentiu em engajar nisto. Sustentamos, além disto, que o Pai deu ao Filho uma companhia específica de pessoas da raça caída de Adão para ser Sua eterna coroa de alegria; que o Espírito garantiu trazer todos estes ao arrependimento e fé; e que o Filho tinha um especial respeito por eles ao executar Sua obra redentora.

Como declarado em outro lugar, mantemos que a provisão de “uma completa salvação para todos os pecadores” não iria custar ao Filho de Deus um pouquinho a mais de sofrimento do que provê-la para os eleitos apenas, de modo que a condenação dos não-eleitos não causaria até a menor dor desperdiçada por Ele. Embora esta generosa inclusão de todos os homens na provisão feita, resultaria, por causa da obstinação dos não-eleitos, em nenhum benefício salvífico para eles, todavia isto evidenciaria a benevolência de Deus ao abrangê-los nela.

Em cada detalhe do todo, o Pai, o Filho e o Espírito agem em perfeito acordo, com nenhuma desarmonia de qualquer espécie. No final, o que foi decretado na eternidade passada, aparecerá na eternidade futura. Isso que a Santa Trindade determinou que deveria ser, será, e o que Ela decidiu permitir acontecer, acontecerá, com nenhuma participação da Deidade no mal feito por qualquer criatura, mas com todo o crédito por todo bom desempenho de todos eles.

Assim a acusação de introduzir desordem na Divindade está tão distante da verdade quanto é possível estar. Mantemos ainda que, em diferentes aspectos, todas as coisas são de Deus, por Ele, e para Ele, para Quem seja a glória para sempre.

2. Também sustentamos – e novamente de acordo com os homens da Expiação Limitada – que, como houve uma aliança feita na eternidade passada pelos Membros da Divindade, assim houve uma outra instituída no surgimento da história humana, quando o Deus Triúno comprometeu-se a dar à raça vida eterna sob a condição de perfeita obediência à vontade divina, no papel de nossos primeiros pais. É verdade que a palavra “aliança” não ocorre no registro da criação do homem, mas os elementos de uma aliança estão presentes, se usarmos a palavra no sentido em que é usada em relação à aliança com Noé, onde ela denota simplesmente um arranjo soberano instituído por Deus, e não um contrato ordinário entre iguais.

3. Quando esta aliança foi violada na Queda, e a raça inteira foi arruinada, Deus prometeu mandar um Salvador para ela, e garantiu vida eterna aos homens, não baseada em seus desempenhos, mas no do Redentor, dependendo da fé. Isto tem sido chamado o Evangelho ou a Aliança Evangélica. Nela, a condição não é “Se você cumprir toda a lei,” mas “Se você confiar nele que cumpriu todas as exigências para você.”

4. Aqueles que, sob a graça irresistível do Espírito, cumprir a condição da Aliança Evangélica, são imediatamente contados na Aliança da Graça, onde eles são perdoados de todos os seus pecados, declarados justos pela obediência de Cristo, regenerados pelo Espírito e certificados ser herdeiros da bem-aventurança eterna. A esta aliança nenhum dos não-eleitos jamais virá.

Assim a bondade de Deus a toda a humanidade aparece de um modo ou de outro nas três primeiras providências listadas acima: na Aliança da Redenção, em que a provisão por todos foi proposta na morte de Cristo; na Aliança das Obras, em que a vida eterna era estendida a todos no caso de nossos primeiros pais terem obedecido; e na Aliança do Evangelho, em que a mesma vida é oferecida a todos sob a condição de arrependimento e fé. Em todos os três exemplos a benevolência divina a todos os homens foi mostrada.

Consideramos que a beneficiência divina está ainda mais elevada por todas as operações graciosas das providências ordinárias de Deus, e as influências extraordinárias de Seu Espírito, segundo a qual Ele lança obstáculos no curso da auto-destruição do pecador, e repetidamente implora a ele para refletir antes de ser precipitado no inferno. Deus não é nenhum espectador ocioso, mas um dissuasor ativo, ante a destruição dos não-eleitos. Todavia Deus não está frustrado em sua condenação final, pois Ele poderia ter, tivesse Ele escolhido, exercido ainda maior força sobre eles, mais do que o suficiente para ter efetuado sua salvação. Entretanto, Ele não tinha nenhuma obrigação de agir assim, especialmente visto que Sua provisão salvadora já tinha sido ignorada pelos tais que ouviram o Evangelho, e todas as Suas confortáveis interferências tinham sido ingratamente resistidas, da parte de todos.


2. A DOUTRINA DA IMPUTAÇÃO


Imputar uma coisa a uma pessoa é, correta ou incorretamente, considerá-la ou contá-la como sua. Imputar pecado a um homem é colocar o pecado em sua conta, e imputar justiça a ele é colocar justiça em sua conta. O pecado imputado pode ser o pecado do próprio homem ou de outro, e a justiça imputada pode também ser a sua própria ou de outro.

Um caso de imputar a um homem seu próprio pecado, ou acusá-lo, é o de Simei. Ele tinha gravemente pecado contra Davi, no dia que o rei saiu de Jerusalém fugindo de Absalão, pois ele tinha lançado pedras contra ele, e o amaldiçoado. 


“E, amaldiçoando-o Simei, assim dizia: Sai, sai, homem sanguinário, homem de Belial! O Senhor te deu agora a paga de todo o sangue da casa de Saul, em cujo lugar tens reinado; já entregou o Senhor o reino na mão de Absalão, teu filho; e eis-te agora na desgraça, pois és um homem sanguinário” (2Sm 16.7-8). 

Mas quando Davi estava voltando, após a morte de Absalão, Simei correu até ele e disse: 

“Não me impute meu senhor à minha culpa, e não te lembres do que tão perversamente fez teu servo, no dia em que o rei meu senhor saiu de Jerusalém; não conserve o rei isso no coração. Porque eu, teu servo, deveras confesso que pequei” (2Sm 19.19-20). 

Aqui a imputação a que se refere é a de acusar um pecado pessoal de um homem contra ele.[1]

Um caso de imputar a um homem um pecado de outro, e culpá-lo por isto, é o de Acabe com Elias. O pecado do rei Acabe trouxe calamidade sobre o reino do norte de Israel, mas quando ele encontrou o profeta, ele o acusou de ser o perturbador da nação (1Re 18.17). Dessa forma ele imputou a Elias o mal cometido por ele mesmo e pela casa de seu pai (v. 18).[2]

Por outro lado, temos um exemplo de imputar a um homem seu próprio ato de justiça no caso de Finéias. Quando um israelita trouxe uma mulher midianita imoral ao acampamento, Finéias, um neto de Arão, o sumo sacerdote, tomou uma lança em sua mão, e foi atrás dos dois na tenda, onde ele os atravessou a ambos; ele assim fez cessar a praga que tinha sido violenta porque o povo tinha “se prostituído com as filhas de Moabe” (Nm 25.1-9). Deus tomou conhecimento deste ato corajoso, pois somos informados que “isto lhe foi imputado como justiça” (Sl 106.31).[3]

Um caso de imputar a um homem a bondade de outro, de forma que ele receba o que o outro merecia, é o de Davi e Mefibosete. O último foi o filho de Jônatas, a quem Davi usou de benevolência em consideração a seu amado amigo do passado (2Sm 9.1-13).[4]

Dessa forma, a imputação se relaciona tanto com o pecado quanto com a justiça. Às vezes a ação é causada pela própria pessoa, e então a lei é aplicada, que diz: “A justiça do justo ficará sobre ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” (Ez 18.20). Às vezes a ação é causada por uma outra pessoa, e é atribuída à pessoa que não a praticou.

Os três maiores exemplos de imputação na Escritura são: do pecado de Adão a nós, de nossos pecados ao Filho de Deus, e de Sua justiça a nós.

1. O pecado de Adão é imputado a todos os homens: “Por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram” (Rm 5.12). Aqui o pecado imputado é nosso próprio pecado, pois pecamos quando Adão pecou. Seu pecado foi inclusivamente nosso, e é por essa razão justamente lançado contra nós, com o resultado que a sentença de morte imposta a ele é imposta a nós também.

2. A justiça de Cristo é imputada a todos os crentes. Isto é chamado “a justiça de Deus” em inúmeras passagens (Rm 1.17; 3.21-22; 2Co 5.21; Fp 3.9) – significando, não a justiça que Deus é, mas a que Ele dá. A retidão pessoal de Deus não é creditada a nós, mas a de Seu Filho encarnado é. Portanto, somos informados que “Cristo é o fim da lei para justificar a todo aquele que crê” (Rm 10.4), e que Deus fez Cristo ser nossa justiça (1Co 1.30). Cristo é “Senhor justiça nossa” (Jr 23.6), pois a bondade que Ele é e tem feito é imputada a nós.

É importante notar que a imputação a nós do pecado de Adão é simplesmente uma questão de justiça, visto que seu pecado foi nosso próprio assim como seu, mas que a imputação a nós da justiça de Cristo é puramente uma questão de graça, visto que a justiça imputada é exclusivamente de Cristo, não tendo nós nenhuma parcela de contribuição em sua produção.

Uma outra coisa importante a observar é que em ambos os casos a imputação resulta de uma união, embora a união não seja do mesmo tipo em ambos. Tome o primeiro caso. A imputação do pecado de Adão a nós flui do fato que nós participamos tanto de sua natureza humana como de sua depravação moral. Tivesse ele gerado filhos antes da queda, eles, tendo sua natureza apenas, e não também sua depravação, não teriam tido seu pecado contado como deles. O pecado dos anjos caídos não é contado como nosso, pois nem nossa natureza nem nossa depravação foi derivada deles. É porque estamos unidos a Adão (em sua vida natural e moral) que seu pecado é creditado a nós.

Em virtude de um diferente tipo de união, a justiça de Cristo é creditada a nós. Neste caso, a imputação resulta de uma união espiritual, que consiste na habitação comum do Espírito Santo nele, o Filho do Homem, e em nós. É por esta união do Espírito que somos ditos estar “em Cristo,” isto é, em união com Ele. Aqueles que estão fora de Cristo não têm Sua infinita retidão antes da lei divina creditada a eles. Somente aqueles que estão “nele” O possuem como sua justiça (1Co 1.30; Fp 3.10). Sua bondade de caráter e ação é creditada somente àqueles que estão unidos a Ele (pelo Espírito de Sua parte, e pela fé da nossa parte). Sendo membros de Cristo, Sua justiça pertence a eles no tribunal de Deus.

3. Quando chegamos a considerar a imputação do pecado humano ao Filho de Deus, o caso é ainda diferente. Ao passo que nos exemplos precedentes, a imputação resultou de uma união, nesta é somente associada com alguém.

Há somente duas uniões existentes entre o Filho e os homens. A primeira é uma união orgânica que ele tem com todos os homens em virtude de Sua encarnação, em que Ele se tornou homem de homem do mesmo modo que Ele tinha desde sempre sido Deus de Deus. Então há essa união espiritual que Ele tem com todos os crentes em virtude de sua incorporação, em que Ele se torna habitado pelo Espírito Santo que eternamente reside em Sua humanidade. Desta união que eu acabei de falar que resulta em nossa justificação.

Nenhuma destas uniões envolve a imputação do pecado humano ao Filho de Deus. O primeiro não, pois, embora o Filho assumiu a natureza humana sobre Si mesmo, Ele não a assumiu com a depravação humana. Então, Ele não poderia ser, por essa razão, mais creditável com nosso pecado do que os filhos de Adão, tivesse qualquer um nascido antes da queda, poderia teria sido creditável com o seu.

Há cinqüenta anos atrás ouvi A. H. Strong, o teólogo batista, dar uma palestra na qual ele defendia – como ele faz em sua Teologia Sistemática – que a encarnação do Filho com nossa natureza por si mesmo O envolveu em nossa culpa. Por muitos anos, eu pensava que ele estava correto, mas eu não penso mais assim. Na primavera de 1936, eu consultei Louis Berkhof, um professor no Calvin Seminary, Grand Rapids, sobre este ponto, e ele me escreveu o que eu estou certo que é a concepção correta. Ele disse: 

“Devemos distinguir entre a encarnação como tal e a apropriação de nossa culpa, mas ao mesmo tempo ter em mente que a distinção não é temporal mas lógica. O fato da encarnação como tal não necessariamente envolver a apropriação de nossa culpa, ainda que no plano de Deus isto foi destinado a ser acompanhado com ela. Visto que Cristo não foi uma Pessoa humana, mas divina, que assumiu a natureza humana, Ele não foi naturalmente, em virtude de Sua encarnação com nossa natureza humana.... envolvido em nossa culpa.... A culpa da humanidade veio sobre Ele, não como o resultado natural dele assumir nossa natureza, mas em virtude de uma imputação divina,” que ocorreu, ele afirma, quando o Filho de Deus, “voluntariamente Se colocou sob a lei.... tomando nosso lugar como o último Adão na Aliança das Obras.”

Nem a outra união (a união espiritual do Filho com os crentes) envolveu a imputação a Ele do pecado humano. Tivesse envolvido, então a expiação não poderia ser feita até que o último dos eleitos recebesse o Espírito Santo. Mas sabemos que ela é, agora, perto de 2000 anos, visto que a cruz foi levantada no Calvário, e outros ainda estão sendo incorporados em Cristo pela vinda do Espírito. Seus pecados foram imputados a Ele muito tempo antes deles serem unidos a Ele.

Não, a imputação do pecado humano ao Filho de Deus não resulta de Sua união natural com a raça ou de Sua união espiritual com os eleitos. Foi imputada a Ele somente porque Ele voluntariamente a assumiu quando Ele assumiu nossa natureza. Berkhof, na referida carta, diz, citando Gl 4.4: “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher (encarnação), nascido debaixo de lei (ao mesmo tempo assumindo nossa culpa).” O bispo Lancelot Andrewes (1555-1626), em seu famoso Sermons on the Nativity, diz a mesma coisa. No sermão IV lemos seus comentários sobre a passagem citada por Berkhof: “nascido de mulher, nascido debaixo de lei.” Ele diz:

“‘Nascido’ e duas vezes ‘nascido’.... ‘nascido de’ e ‘nascido debaixo de’.... Ele.... tomou para Si não apenas nossa natureza mas nossa dívida, nossa natureza e também nossa condição. Natureza como homens, condição como pecadores, expressada nas seguintes palavras, ‘os que estavam debaixo de lei;’ pois esta era nossa condição. De fato, não teria havido nenhuma capacidade dele agir assim, se o primeiro não tivesse acontecido antes.... se Ele não tivesse sido, como nós, ‘nascido de mulher.’ Mas o primeiro aconteceu por isto; ‘nascido de mulher’ Ele era, que Ele poderia ser ‘nascido debaixo da lei,’ que antes Ele não poderia, mas então passou a poder, e assim fez.”[5]

A dívida que Ele assumiu no início de Sua vida, Ele pagou no final dela.

Duas coisas são perfeitamente claras na Escritura: primeiro, que o Filho de Deus tinha que se tornar Homem antes de poder fazer expiação pelo pecado do homem. Ele tinha que sofrer na mesma natureza que tinha transgredido. Em Israel, era somente um parente próximo da família que poderia resgatar a herança de um homem. Então a consangüinidade tinha que preceder a redenção humana. Portanto, o Novo Testamento corretamente se harmoniza com a gloriosa verdade que Deus Filho se tornou homem ao assumir a substância da Virgem Maria numa união indissolúvel consigo mesmo.

A segunda coisa que é perfeitamente clara na Escritura é que o propósito da encarnação foi a expiação. O próprio Cristo disse; 

“O Filho do homem veio.... para dar a sua vida em resgate” (Mc 10.45). 

Paulo declara:

“Deus enviou seu Filho, nascido de mulher.... para resgatar” (Gl 4.4-5). 

O autor da epístola aos Hebreus nos conta que o Filho de Deus 

“foi feito um pouco menor que os anjos, por causa da paixão da morte” (Hb 2.9)


“Na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hb 9.26). 

João acrescenta: 

“Ele se manifestou para tirar os pecados” (1Jo 3.5)


“Deus.... enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 4.10).

Visto que a encarnação foi necessária para fazer o resgate, e visto que o propósito no primeiro foi o cumprimento do último, concluímos, à luz de Gl 4, que, embora a encarnação não envolva de si mesmo a imputação da encarnação humana de nossa natureza, todavia essa imputação acompanhou sua encarnação de nossa natureza. Apesar dele ter assumido a humanidade isto não O obrigou a fazer expiação, mas O capacitou a assim fazer. Ele se obrigou a assim fazer ao voluntariamente assumir nossas obrigações quando Ele assumiu nossa humanidade. E este é o consistente testemunho da Escritura: que o Filho agiu livremente na redenção. “Ele deu a Si mesmo” é a doutrina bíblica. Ele não foi obrigado a agir assim por causa de qualquer ligação antecedente com o homem, seja natural ou espiritual.

Os homens da Expiação Limitada geralmente sustentam, como nós, que, subseqüente à queda, os eleitos primeiros foram condenados em Adão, então condenados mas com a expiação provida, e finalmente (após arrependimento e fé) não mais condenados mas perdoados por causa da expiação aplicada. Eles também sustentam, como nós, que a primeira posição é devido à ligação orgânica dos homens com Adão através da geração, a segunda devido à obra expiatória do Filho de Deus, pela qual Ele qualificou a Si mesmo por sua ligação orgânica com eles através da encarnação, e a terceira devido à sua ligação espiritual com o Cristo glorificado através da incorporação.

Mas a ligação orgânica do Filho de Deus com os homens através da encarnação não foi somente com os eleitos; foi igualmente com os não-eleitos, pois ambas as classes têm a mesma humanidade. Ele assumiu a natureza de ambas. Por essa razão segue que se o fato dele assumir a natureza do homem fundamenta a imputação a Ele dos pecados dos eleitos, ela também fundamenta a imputação a ele dos pecados dos não-eleitos também. Pois observem: vimos que o pecado de Adão é imputado a todos os seus descendentes, e que a justiça de Cristo é imputada a todos os crentes. Em nenhum exemplo há uma única exceção: todos que são organicamente um com Adão estão envolvidos em seu pecado; e todos que são espiritualmente um com Cristo estão envolvidos em Sua justiça. Com que base, perguntamos, devemos acreditar que somente alguns daqueles com quem o Filho de Deus se identificou naturalmente, tiveram seus pecados assumidos por Ele, enquanto incontáveis milhões foram ignorados?

Vemos, então, que a teoria da Expiação Limitada está em desacordo com o princípio da universalidade encontrada nos outros dois maiores exemplos de imputação. Nos sentimos obrigados a manter que, como todos que são naturalmente um com Adão têm seus pecados imputados a eles, e como todos que são naturalmente um com Cristo têm Sua justiça imputada a eles, assim todos com quem o Filho de Deus se tornou naturalmente um tiveram seus pecados imputados a Ele.[6] Esta decução necessária é apoiada por vários textos. É “o pecado do mundo” pelo qual o Cordeiro de Deus sofreu (Jo 1.29). Ele é a propiciação “pelos pecados de todo o mundo” (1Jo 2.2). Como resultado, Ele é “o Salvador do mundo” (Jo 4.42; 1Jo 4.14).

Podemos agora resumir a doutrina bíblica da união orgânica e a imputação como segue: 

Primeiro, há a união natural com Adão da parte de todos os homens, através da geração ordinária, seguida pela imputação a eles de seus pecados nele, que é um ato de justiça divina. 

Em segundo lugar, há a união natural do Filho de Deus com todos os homens, através da encarnação (na qual Sua humanidade foi de forma sobrenatural produzida da Virgem Maria pela operação do Espírito Santo, e, por Seu próprio ato, tomado em conjunção com Sua Pessoa divina), seguido pela imputação a Ele dos pecados da raça inteira, que foi um ato de graça divina. Disto veio a provisão de uma justiça infinita para todos os homens, consistindo, negativamente, na satisfação propiciatória que a santidade divina exigia para o pecado, e positivamente, em inteira conformidade à lei divina como visto na perfeita obediência de Cristo. 

Em terceiro lugar, há a união espiritual dos eleitos com o Filho encarnado, agora glorificado, através da incorporação, segundo a qual, tendo o Espírito Santo infundido neles, eles são feitos membros desse corpo místico do qual Cristo é a Cabeça. Isto, também, é um ato de graça divina, e é seguido pela imputação da justiça completa mencionada acima, para que o crente mude sua condenação em Adão para uma justificação santificada em Cristo.

As Escrituras dessa forma declaram dois grandes fatos soteriológicos: que o Filho eterno se tornou um com todos os homens ao encarnar-se, e que aqueles que crêem nele se tornam um com Ele ao receber Seu Espírito. Estas duas uniões – a hipostática e a mística – são os focos da doutrina da Salvação da Bíblia. Dentro de seu domínio encontram-se todas as verdades relacionadas à redenção provida e a redenção aplicada. Foi provida em favor da raça, mas é aplicada somente aos eleitos. Por que a provisão é mais ampla do que a aplicação é considerada em outro lugar neste ensaio.


3. CRISTO MORREU POR NOSSOS PECADOS


A Bíblia não somente declara que Cristo morreu por pecadores; ela também diz que Ele morreu por seus pecados. Isto é dito repetidamente em Isaías 53. 


Verso 5: “Ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniqüidades.” 

Verso 6: “O Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós.” 

Verso 8: “Ele fora cortado da terra dos viventes, ferido por causa da transgressão do meu povo.” 

Verso 11: “As iniqüidades deles levará sobre si.” 

Verso 12: “Ele levou sobre si o pecado de muitos.”

No Novo Testamento temos 

Jo 1.29: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo;” 

1Co 15.3: “Cristo morreu por nossos pecados;” 

Gl 1.4: “O qual se deu a si mesmo por nossos pecados;” 

Hb 1.3: “Havendo ele mesmo feito a purificação dos pecados;” 

Hb 2.17: “A fim de fazer propiciação pelos pecados do povo;” 

Hb 9.26: “Uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo;” 

Hb 9.28: “Oferecendo-se uma só vez para levar os pecados de muitos;” 

1Pe 2.24: “Levando ele mesmo os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro;” 

1Pe 3.18: “Também Cristo morreu uma só vez pelos pecados;” 

1Jo 2.2: “Ele é a propiciação pelos nossos pecados;” 

1Jo 3.5: “Ele se manifestou para tirar os pecados;” 

1Jo 4.10: “Deus.... enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados.”

Isto significa que Cristo sofreu por todo tipo de pecado já cometido pela espécie humana. Por exemplo, Ele sofreu pela violação de cada um dos Dez Mandamentos. Não há, de fato, nenhuma transgressão de qualquer uma das leis de Deus pela qual Cristo não sofreu. Seja qual for – Ele suportou sua punição.

Isto é diferente de dizer que Cristo sofreu tanto pelos pecados deste homem, e tanto pelos pecados daquele homem. Quando Ele sofreu por qualquer pecado particular, Ele sofreu por um pecado do qual milhões foram culpados. Visto que o valor de Seu sofrimento por esse pecado foi infinito (por causa de Sua própria infinidade), provisão foi feita desse modo por todos os casos desse pecado sempre que cometido.

Disto é evidente que Cristo sofreu pelos pecados de ambos, eleitos e não-eleitos, quando Ele suportou a punição de qualquer pecado particular, visto que ambos os grupos de pessoas foram culpados desse pecado. E, é claro, o mesmo é válido para cada um dos pecados pelo qual Ele sofreu. Ele não poderia sofrer pelos pecados dos eleitos sem sofrer pelos dos não-eleitos, pois ambos os grupos pecaram os mesmos pecados. Ele não teria sofrido menos tivesse menos sido eleitos, nem mais se um número maior tivesse sido escolhido. Hodge com propriedade diz: 

“Tudo que Cristo fez e sofreu teria sido necessário tivesse somente uma alma humana side o objeto da redenção; e nada diferente e nada mais teria sido exigido tivesse cada filho de Adão sido salvo pelo Seu sangue.”[7]

Por exemplo, quando Cristo sofreu pelo pecado de assassinato, Ele sofreu verdadeiramente tanto pelo crime de Caim quando pelo de Paulo, ainda que Caim já estava há muito no inferno quando Ele sofreu. A virtude de Seu sofrimento foi retroativo à Queda, e disponível a crentes penitentes, cada um em seu próprio dia e geração.

Um pai arrisca sua vida para resgatar seus filhos que estão ameaçados por uma bomba escondida. Custa a ele o mesmo tanto resgatar um quanto dez. Assim Cristo não tinha que sofrer um pouquinho mais para prover salvação para todos do que provê-la para alguns. Sofrer pelos não-eleitos não significou nenhum sofrimento adicional além daquele envolvido no sofrimento pelos eleitos apenas. Fora então com a conversa tola de desperdiçar o sofrimento de Cristo se Ele sofreu por aqueles que são condenados; Ele sofreu por todos, ou Ele sofreu por ninguém. Todavia Owen sarcasticamente pergunta: 

“A que propósito serve a redenção geral senão somente para afirmar que Deus Todo-Poderoso teria o precioso sangue de Seu querido Filho despejado por inumeráveis almas que Ele não terá que compartilhar nenhuma gota, e assim, a respeito deles, ser derramado em vão, ou senão ser derramado por eles somente para que eles possam ser os mais profundos condenados?”[8] 

É mais um caso de um homem estar equivocado gritanto tão alto quanto sua voz permite.

É muito mal ao grande teólogo puritano cometer esse erro sobre o sangue de Cristo ser em alguns casos derramado em vão se houver uma redenção geral; é muito pior para ele representar Deus como adverso a que algumas almas tenham parte na virtude de seu poder expiador. Isto está em direta contradição com todas aquelas escrituras em que o próprio Deus nos assegura, por palavra e obra, que Ele quer que todos os homens sejam salvos, e venham ao conhecimento salvífico de Sua verdade. Owen é aqui culpado de pintar Deus em cores que O desonra.

Na Conferência Puritana de 1951 em Londres, o Dr. D. Martyn Lloyd-Jones, o ministro em Westminster Chapel, afirmou que 

“se você realmente crer na Expiação Universal, você é confrontado com a questão, O pecado será punido por pessoas por cujo pecado já foi expiado? Não pode ser.”[9] 

Que esta supostamente insuperável objeção é inválida foi apontado há muito tempo atrás pelo amigo de John Owen, Edward Polhill (1622-1694).[10] Ele mostrou que a justiça de Deus requer que Ele seja satisfeito com um pagamento feito, ou pelo próprio pecador ou por uma garantia que ele (o pecador) possa prover, mas não com uma garantia que Deus possa prover. No último caso, Ele é livre para fazer estipulações, e desta maneira Ele fez, para somente aqueles que se arrependem e crêem obterão o benefício da morte de Cristo. Assim Cristo morreu para tornar possível a salvação de todos, mas para tornar real a salvação dos eleitos apenas. A culpa pela condenação do pecador repousa nele mesmo, visto que ele obstinadamente recusa a graça oferecida a ele. A objeção sobre duplo pagamento é simplesmente sem fundamento.

Visto que Cristo sofreu por todo pecado humano, Ele sofreu inclusive pelo pecado de Adão, que foi o pecado da raça toda, consistindo de ambos, eleitos e não eleitos (Rm 5.12). Nós, por essa razão, nos opomos àqueles que negam a imputação do pecado do Primeiro Homem ao Segundo Homem, enquanto afirmamos a imputação da obediência do Segundo Homem a todos que crêem nele.

Notas:  

[7] Hodge, Systematic Theology (New York, 1871; reimpresso Grand Rapids, 1946), Vol. II, p. 545.
[8] Owen, The Death of Death (1648; reimpresso Londres, 1959), p. 37.
[9] Reformation Today (periódico, Cuckfield, Sussex), No. 6, 1971, pp. 23f.
[10] Polhill, The Divine Will Considered in its Eternal Decrees (London, 1673), Ch. 8, 4a. divisão principal, 3a. subdivisão, Objeção 4.



4. EXPIAÇÃO E INTERCESSÃO


É provavelmente verdadeiro dizer que o argumento favorito para a Redenção Particular é baseado na inseparabilidade da expiação e da intercessão de Cristo. Desta inseparabilidade não pode haver dúvida. As duas estão unidas repetidamente na Escritura (Jo 17.4, 9, 20; Rm 8.34; Hb 7.25-27; 1Jo 2.1-2); e necessariamente assim, visto que elas são somente diferentes atividades do mesmo ofício sacerdotal de Cristo.

Por causa da conjunção indissolúvel destes dois ministérios sacerdotais de Cristo, é argumentado que as mesmas pessoas que estão envolvidas em uma, devem estar também envolvidas na outra. Owen, por essa razão, declara: 

“Quais pessoas, de qualquer maneira, que uma diz respeito, nas boas coisas que ela obteve, as mesmas, todas, e ninguém mais, a outra diz respeito, ao aplicar as boas coisas assim obtidas.”[11] 


Em outras palavras, ele diz que somente as pessoas por quem Cristo intercede no trono que Ele expiou os seus pecados na cruz. O sumo sacerdote que fazia o sacrifício em Israel carregava os nomes das doze tribos nos ombros de sua força e no peito de seu amor.

Agora, é nítido no Novo Testamento que as pessoas por quem Cristo intercede são aquelas que crêem. Quando Ele orou por Pedro (Lc 22.32), ele era um crente. Quando Ele orou pelos apóstolos (Jo 17.6-19), eles eram crentes. Quando Ele orou pelos futuros convertidos (Jo 17.20), foi para eles como crentes; não que eles possam se tornar crentes, mas que eles possam todos ser um. O contexto de Rm 8.34 (vv. 26-39) mostra que a intercessão lá mencionada diz respeito a crentes. Em Hb 7.25, o grande Sumo Sacerdote intercede pelos “que por ele se chegam a Deus,” e no cap. 9.24, Ele aparece “por nós perante a face de Deus” (onde “nós” evidentemente denota crentes). Assim, também, em 1Jo 2.1: nós, que “temos um Advogado para com o Pai,” são chamados “meus filhinhos.” Visto que, então, é por crentes apenas que Cristo ora – não verbalmente de fato, mas por Sua mera presença acima em Sua humanidade glorificada – é afirmado que é por tais apenas que Ele fez a expiação.

A falha no raciocínio de Owen e seu grupo é a falta de distinguir entre o que é provisional de um lado, e o que é possuído de outro. Nós mantemos que Cristo é um sacerdote divinamente provido para toda a humanidade, e que, como tal, Ele deve ser oferecido a todos os homens no Evangelho. Qualquer membro da raça de Adão pode tê-lo como seu sacerdote se quiser, e aquele que O recebe – até se ignorante do sacerdócio de Cristo – O tem como um sacerdote sacrificial e intercessor.

Até os eleitos não possuem Cristo como seu sacerdote antes de terem-no recebido. Então eles O tem nos dois ofícios – de expiação e intercessão. Anterior a isso, Ele refreia estes valores para eles, mas somente potencialmente, não de fato. Alguém se aventuraria a dizer que Cristo intercede por aqueles que agora O recusam como seu Sacrifício? Se assim, deixe-os citar os textos que apóiam esta concepção. Aqueles citados acima estão em direta contradição com isto.

No capítulo IV.3, sobre “A Oferta Universal do Evangelho,” notaremos que muitos crentes na Expiação Limitada – Spurgeon, por exemplo – mantêm que a salvação deve ser apresentada a todos os homens indiscriminadamente, eleitos e não-eleitos. Nenhuma diferença deve ser feita entre eles. A própria pregação do Evangelho é, por essa razão, uma declaração a todos que Deus tem graciosamente provido salvação, e que pode ser deles se se arrependerem e crerem. James I. Packer, o hábil teólogo anglicano, diz que os convites de Cristo são universais, reais, e maravilhosamente graciosos. 

“Cristo endereça-os a pecadores, como tais, e todo homem, quando ele crê que Deus seja verdadeiro, com certeza irá tratá-los como palavras de Deus a ele, pessoalmente, e aceitará a promessa universal que os acompanha, que todos que vêm a Cristo serão recebidos... Deus comanda todos a se arrependerem e crerem; Cristo promete vida e paz a todos que fizer assim.”[12]

Não oferecemos um Cristo parcial, mas um completo, aos pecadores. Nós O oferecemos em todos os Seus ofícios e realizações e ministérios. E quando qualquer um, sob a influência constrangedora do Espírito, aceita Cristo, é Cristo em Sua inteireza que ele possui. Ele, por essa razão, então O tem como Profeta, Sacerdote, e Rei; e em Sua posição como Sacerdote, em todo o valor de Seu sacrifício expiatório e em toda a consolação de Sua intercessão permanente.

Assim nós não, como é comumente acusado, separamos as duas funções sacerdotais de Cristo; nós insistimos em sua indissolubilidade tanto quanto os homens da Expiação Limitada. O que mantemos é que, potencialmente, elas pertencem a todos, mas que, de fato, elas pertencem aos crentes apenas; que as duas são providas para todos, mas possuídas somente por aqueles que têm crido. Assim o fato que Cristo intercede somente pelos santos de forma alguma prova que Ele não proveu expiação para todos. A intercessão real de Cristo não deve ser correlacionada com Sua expiação provisional, mas somente com Sua expiação conforme aplicada através da fé. Ele ora, não por todos por quem Ele proveu expiação, mas somente por aqueles que a têm recebido.

1Jo 2.2 (a ser considerado mais tarde sob “O Testemunho Bíblico III”) traz diante de nós ambos tipos de pessoas; crentes e incrédulos. Lá somos informados de que Cristo é o Advogado dos crentes que pecam; isto, pois “Ele é a propiciação pelos nossos pecados,” que significa que Ele é a propiciação real para eles (“uma propiciação através da fé” – Rm 3.25). Mas somos também informados que Ele é a propiciação “pelos pecados de todo o mundo,” como está na KJV. Isto significa que Ele é a propiciação potencial somente; de outra forma o apóstolo estaria ensinando o universalismo. Ele quer dizer o mesmo quando ele diz no cap. 4.14 que “o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo” – o Salvador do mundo, provido e potencial.

Este capítulo estaria incompleto sem uma referência à grande oração intercessória de Cristo relatada em João 17. Muitos têm colocado indevida ênfase em Suas palavras, “não rogo pelo mundo” (v. 9), como se elas envolvessem sua total exclusão de Suas petições. Alvah Hovey (1820-1903), o Presidente do Newton Seminary, tem observações que valem a pena citar:

“Não pode ser seguramente inferido disto que Ele nunca orou pelo mundo de forma geral, ou por pessoas que finalmente pereceriam em seus pecados. Que Ele não orou por eles nos mesmos termos que pelo Seus, é natural; que as bençãos que Ele pediria a Seus inimigos devem ser diferentes em alguns aspectos daqueles pelas quais Ele pediria para Seus amigos, é certo; mas esta passagem não garante a afirmação de que Ele absteve-se em todas as ocasiões de orar pela humanidade como arruinada pelo pecado e necessitando de salvação.”[13]

O comentário de Henry Alford (1810-1871), um hábil estudioso do grego, sobre as palavras também é pertinente, quando ele diz que Cristo somente quis dizer

“que Ele não está agora rogando pelo mundo, não faz esta oração pelo mundo. Estes já creram; a oração para eles é por essa razão uma oração diferente.... O erro seria imediatamente evitado por leitores ingleses pela paráfrase: Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo.”[14]

Assim, também, o bispo B. F. Westcott (1825-1901):

“A exclusão do mundo da oração de Cristo,” neste verso, “não é nenhuma limitação da extensão de Seu amor, mas um resultado necessário das circunstâncias imediatas da oração.”[15]

Na verdade, Cristo indiretamente orou pelo mundo no mesmo capítulo: “para que o mundo creia que tu me enviaste” (v. 21); e “para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim” (v. 23). Owen chama isto “um reflexo que surge de uma benção obtida por outros,”[16] ao que apoiamos, mas quando ele afirma que “isto não é para qualquer bem do mundo, mas para a defesa de Seu povo e a exaltação de Sua própria glória,”[17] nós nos opomos. E bem podemos, visto que o teólogo puritano vai tão longe na defesa desta idéia que chega a negar que o crer do v. 21 e o conhecer do v. 23 devam ser tomados “em um estrito sentido, ou uma compreensão e recepção salvadora de Jesus Cristo, e assim tornando os filhos de Deus.”[18] Ele faz esta negação mesmo diante do fato de que no v. 8 Cristo falou dos apóstolos como aqueles que creram que o Pai O enviou, e no v. 25 como aqueles que conheceram que Ele tinha feito assim. Àqueles que não têm nenhuma teoria para defender, é óbvio que nos versos 21 e 23 Cristo estava pedindo que a obra da graça, já trabalhada nos apóstolos, possa também ser trabalhada no mundo.

É surpreendente que até o criterioso João Calvino (1509-1564) declarou que a palavra “crer” no v. 21 foi usada “em um sentido impróprio, de um mundo reprovado confundido pela vinda do Senhor,”[19] quando a passagem fala da influência agradável da igreja, não do poder opressor do Juiz. Que o verbo “conhecer” no v.23, de fato, se refere a mais do que um mero reconhecimento, como Owen declara, é mais adiante confirmado pelas mesmas palavras quando usadas no cap. 13.35 e 14.31. Alford observa:

“Em todas as três passagens o reconhecimento é de amor; no cap. 13.35, dos discípulos uns aos outros; no cap. 14.31, de Jesus ao Pai, aqui do Pai aos crentes.”[20]

Entretanto, não há nenhuma necessidade de considerar que o “mundo” nestes versos abrange todo e cada membro da raça, nem tem sido comum considerá-lo assim. Por exemplo, Canon T. D. Bernard (1815-1904) diz:

“O mundo é aqui considerado, como muitas vezes em outros lugares, no aspecto geral da vida humana, antes de qualquer decisão final de seu estado, cheio de possibilidades de mudança que pode ser trabalhada, e as potencialidades da fé que pode ser realizada,”[21]

todavia não divorciado da operação da graça soberana. Em harmonia com isto, Alford, nós submetemos, propriamente interpretou o pedido de Cristo sobre crer significando: 

“que este seu testemunho, sendo transmitido por eles todos, e em todas as épocas, pode continuar a convencer o mundo, para que muitos no mundo possam crer;” e sobre conhecer: “que o conhecimento salutar pelo qual, de tempos em tempos, os filhos do mundo são por Deus chamados para tornar os filhos da luz.”[22] 

Assim entendido, o pedido de Cristo foi simplesmente que os eleitos, que por natureza são uma parte do mundo, seria sucessivamente trazidos, e sem falta, a crer e conhecer que o Pai tinha enviado o Filho, e assim para renderem-se aos Seus pés e apropriarem-se de Seus méritos para salvação. É para eles apenas que Sua intercessão salvadora é feita.

Notas:

[11] Owen, op. cit., p. 69.

[12] ibid., Introductory Essay por J. I. Packer, pp. 18f. As citações feitas de Hodge no Capítulo I dizem a mesma coisa. Owen declarou isto também.

[13] Hovey, “The Gospel of John,” em An American Commentary on the N. T. (Philadelphia, 1885), p. 340.

[14] Alford, The Greek Testament (1849-61); reimpresso Chicago 1958), p. 877.

[15] Westcott, The Gospel according to St. John (London, 1882), p. 242.

[16] Owen, op. cit., p. 80.

[17] ibid., p. 85.

[18] ibid.

[19] Calvino como citado por Bernard, The Central Teaching of Jesus Christ (New York, 1890), p. 397. Cf. Calvino, John’s Gospel (Grand Rapids, 1949), Vol. II, p. 184.

[20] Alford, op. cit., pp. 881f., sobre Jo 17.23.

[21] Bernard, op. cit., p. 347.

[22] Alford, op. cit., p. 881, sobre Jo 17.21, 23.










Capítulo IV 


O Aspecto Universal 


 Todos concordam que o evangelho é para todas as nações.  Então iremos nos concentrar neste capítulo sobre o aspecto universal da morte de Cristo.


1. SUFICIENTE PARA TODOS


Ambos os lados nesta controvérsia dizem que a morte de Cristo foi suficiente para todos os homens, mas ambos não querem dizer a mesma coisa. Defensores da Redenção Particular somente querem dizer que o valor intrínseco da morte de Cristo foi suficiente, em si, para cobrir os pecados da humanidade. Visto que Cristo é um membro da Divindade eterna, e por essa razão uma Pessoa infinita, o valor de Seu sofrimento foi infinito, e conseqüentemente mais do que suficiente para expiar por todos. Defensores da Redenção Geral vigorosamente afirmam o valor da morte de Cristo, mas eles defendem, além disto, que este valor foi ordenado de Deus como uma satisfação para toda a raça, disponível a todos mas não destinados a ser aplicados em todos.

A questão, por isso, é: a expiação de Cristo possui uma suficiência limitada (uma mera adequação para cobrir todo e qualquer pecado humano), ou uma suficiência ordenada (sendo divinamente apontada para todos)? Agora, um momento de reflexão deve ser suficiente para mostrar que uma mera suficiência é de nenhum proveito prático aos pecadores. O arcebispo James Ussher (1581-1656) apontou isto há muito tempo atrás quando disse, em seu Judgement sobre “The Extent of Christ’s Death and Satisfaction”: 

“Está muito enganado aquele que pensa que pregar uma mera suficiência é capaz de produzir base suficiente de conforto a uma alma aflita, sem dar um caminho mais distante para ela seguir, e abrir uma passagem adicional.”[1]

Se Deus objetivou que Cristo morresse somente pelos eleitos, como pode o valor infinito de Sua morte, por si mesmo, fornecer a base para a oferta de salvação a todos os homens? Por mais valoroso que Seu sacrifício seja, ele não pode fornecer salvação aos não-eleitos, se foi destinado exclusivamente aos eleitos. Se um multi-milionário for mudar para minha rua, ele sem dúvida nenhuma teria mais do que suficiente para cobrir as dívidas de todos os seus vizinhos, mas sua fortuna não traria nenhum alívio a eles se ele já tivesse estipulado que fosse apenas para o uso de seus amigos em uma outra cidade.


Quando os homens da Expiação Limitada repetem a máxima dos teólogos medievais (que “Cristo morreu por todos os homens suficientemente, para os eleitos eficientemente”), eles não querem dizer o mesmo que esses teólogos. Eles apenas querem dizer que Sua morte, em seu valor intrínseco, foi suficiente para todos; eles negam que Cristo pretendia sofrê-la por todos. Davenant diz que 

“nunca ocorreu aos teólogos medievais defender esta suficiência apenas, e negar absolutamente que Cristo morreu por todos.”[2] 

Esta transferência do termo “suficiência” da intenção de morrer ao mero valor intrínseco da morte de Cristo per se, é algo moderno. O teólogo britânico declara: 

“O senso comum recusa que seja concedido que Ele morreu suficientemente por todos, aquele que é negado ter morrido... por alguns.”[3] 

Certamente, não podemos estar autorizados a oferecer salvação a todo pecador, se Cristo não morreu por todos eles.

O conceito da Expiação Limitada representa o grande Deus de bondade e generosidade sem limite ser como um outro homem rico que provê abundantemente para toda a sua comunidade faminta, e então limita a aplicabilidade de sua provisão a uma parte dos cidadãos. Tal homem dificilmente seria louvado por sua grandeza de espírito. Poderia então Deus, assim concebido, ser louvado por Sua? Mantemos, por isso, que não foi que Deus, por um decreto soberano, estabeleceu um limite para a aplicabilidade da morte expiatória de Cristo; mas que os homens, por sua obstinação, estabeleceu um limite para a sua aplicação. Eles são os limitadores, não Ele. Como Shedd diz: 

“O autor da impenitência e incredulidade é o autor da redenção limitada.”[4] (Veja seu uso de termos em minha Introdução.)

O leitor não deve tirar conclusões precipitadas agora, e atribuir ao presente escritor concepções que são estranhas a ele. Ele não crê que aqueles que aplicam a si mesmos a virtude da morte de Cristo, façam isto de si mesmos; antes, eles fazem isto somente porque o Espírito de Deus sobrenaturalmente os induz a assim fazê-lo. Ele também não mantém que qualquer um a não ser o eleito será na verdade beneficiado da salvação que é aplicável a todos, e aberto para seu proveito. O que ele defende é que Deus se mostra generoso com todos, respondendo eles à Sua bondade ou não. Ainda que deixando a porta aberta a todos não resulta na salvação de uma alma a mais, todavia isto testifica a Sua abundante generosidade com todos os filhos dos homens. Aqueles que são salvos têm Sua graça eletiva a agradecer, enquanto aqueles que se perdem têm somente suas vontades obstinadas a culpar.

Dessa forma os defensores da Redenção Particular refletem sobre a bondade divina. Eles lançam uma nuvem sobre a generosidade de Deus. Sua extraordinária liberalidade, por fazer provisão a todos os homens, é negada em face das mais claras declarações em contrário. Ele é representado como sendo menos generoso do que Ele realmente é. O valor intrínseco da morte de Cristo, de acordo com eles, não é permitido que siga seu curso natural, mas é, por interferência da soberania, represado para o proveito dos eleitos apenas. Isto faz diminuir a glória de Sua generosidade.

Notas:

[1] Citado por James Morison, The Extent of the Atonement (Glasgow, 1882), p. 12. Nem Spurgeon nem eu concordamos com a doutrina da eleição de Morison, mas o primeiro o elogia em Commenting and Commentaries (Kregel, ed. rev., 1954): “Diferimos bastante em concepções doutrinárias do Dr. Morison, mas damos um alto valor para seu Matthew e Mark, que merecem o maior louvor” (p. 157). Sobre Mark, Spurgeon escreve: “Uma obra profundamente culta; não conhecemos nada mais completo. Diferindo da teologia deste autor, nós, apesar disto, valorizamos muito esta produção” (p. 158). Que belo espírito, aqui. Contraste o término do Capítulo 10.

[2] Davenant, The Death Of Christ (1650; reimpresso no Vol. II de On the Colossians, ed. Allport, London, 1832), p. 378.

[3] Ibid., p. 408.

[4] Shedd, Dogmatic Theology (New York, 1888), Vol. II, p. 484.


2. SIGNIFICADOS DA PALAVRA KOSMOS (MUNDO)


Os defensores da Expiação Limitada geralmente interpretam “o mundo,” em textos como Jo 1.29 e 3.16 como “o mundo dos eleitos.” Será produtivo considerar o significado e uso desta palavra.

Richard Chevenix Trench, um arcebispo de Dublin do século 19, nos fornece uma explicação da maneira que o substantivo grego, kosmos, desenvolveu seus vários significados. A palavra originalmente significava “ornamento.” “Disto,” Trench diz, “passou para o significado de ordem ou arranjo, ou beleza que brota deles.” Foi Pitágoras, um filósofo grego do século seis a.C., que, de acordo com Plutarco, um biógrafo grego do primeiro para o segundo século A.D., primeiro adotou a palavra com o significado de soma total do universo material. 

O quarto passo consistiu em empregá-la para “aquela estrutura de coisas em que o homem vive e move, que existe para ele e do qual ele cria o centro moral.” Neste sentido o substantivo era quase equivalente a uma outra palavra grega, oikoumene (“a terra habitada”). Então veio a denotar “a soma total de pessoas vivas no mundo (Jo 1.29; 4.42; 2Co 5.19).” Em sexto lugar ela adquiriu, no Cristianismo, o significado ético: “todos os não da ekklesia (igreja), alienados da vida de Deus, e por suas más obras, inimigos dele (1Co 1.20-21; 2Co 7.10; Tg 4.4).”[5]

Uma histórica muito mais completa da palavra aparece no Theological Dictionary of the New Testament de Kittel. Lá o autor (Hermann Sasse, então de Erlangen) primeiro pesquisa o uso não-bíblico em doze páginas e meia; então seu emprego na versão grega do Velho Testamento; e finalmente seu uso no Novo Testamento em treze páginas. 

Nesta última parte ele menciona que a palavra denota “adorno” em apenas uma ocasião (1Pe 3.3) – que corresponde ao primeiro significado de Trench. O segundo significado (ordem) está ausente no Novo Testamento, mas o terceiro (o universo, o equivalente à expressão do Velho Testamento “céu” e “terra”) é muito proeminente. 

O quarto (“a Moradia dos Homens, o Teatro da História, o Mundo Habitado, a Terra”) também é comum nas Escrituras Cristãs. Sob este título, como uma subdivisão, Sasse coloca o quinto significado de Trench (humanidade), como é claro de sua inclusão no “mundo habitado.” A última seção, a mesma última de Trench, é chamada “Humanidade, Criação Caída, o Teatro da História da Salvação.”[6]

W. E. Vine menciona estes usos de kosmos: Ordem, Adorno, o Universo, a Terra, a Humanidade, e “a presente condição dos negócios humanos, em alienação e oposição a Deus.”[7] Marvin R. Vincent tem (a) ornamento, arranjo, ordem; (b) a soma total do universo material considerado como um sistema; (c) o universo como a moradia do homem; (d) a soma total da humanidade no mundo; a raça humana; (e) no sentido ético, a soma total da vida humana no mundo ordenado, considerado à parte de, alienado de, e hostil a Deus, e das coisas terrestres que desviam de Deus.[8]

Quando nos voltamos para os léxicos gregos, encontramos o mesmo padrão. Robinson lista estes significados de kosmos no Novo Testamento: Decoração, Ordem, o Universo, a Terra como a moradia do homem, Humanidade, e a Humanidade Pecadora.[9] Thayer, em sua revisão de Grimm, lista: Ordem, Adorno, o Universo, a Terra, os Habitantes do mundo, e a Multidão de ímpios.[10] (O único desvio está na ordem de mencionar os primeiros dois usos.) Souter dá estes: o universo, o mundo como separado de Deus, o mundo habitado, adorno.[11] Berry começa com o último de Souter (1Pe 3.3), e acrescenta: o universo material (Lc 11.50), o mundo (Jo 11.9), os negócios terrenos (Gl 6.14), os habitantes do mundo (1Co 4.9), aqueles opostos a Deus (Jo 8.23) e uma vasta coleção de alguma coisa (Tg 3.6).[12] Arndt and Gingrich incluem o seguinte: Adorno, o Universo organizado, a soma total de todos os seres acima do nível dos animais, a Terra, a Humanidade, e o homem depravado.[13] Abbot-Smith lista: Ordem, Ornamento, o Universo, a Terra, os habitantes humanos dela, e os ímpios.[14]

Em alguns dos volumes referidos há alguns usos adicionais da palavra dada, tais como o mundo gentio em distinção de Israel (Rm 11.12, 15), e a soma das possessões temporais (Mt 16.26). Mas entre todas as divisões e subdivisões listadas, a palavra nunca é dita denotar “os eleitos.” Estes léxicos desconhecem tal uso de kosmos no Novo Testamento, sob o qual para organizar Jo 1.29; 3.16-18; 4.42; 6.33, 51; 12.47; 14.31; 16.8-11; 17.21, 23; 2Co 5.19; 1Jo 2.2; 4.14.

O mesmo vale para as enciclopédias e dicionários bíblicos. Posso remeter o leitor a J. Weiss em The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, V. H. Stanton em Bible Dictionary de cinco volumes de Hasting, E. W. G. Masterman em Dictionary of the Bible em um volume de Hasting, Robert Law em Dictionary of the Apostolic Church, o bispo Moule em The International Standard Bible Encyclopedia, R. V. G. Tasker em The New Bible Dictionary (1962), e Everett F. Harrison em Dictionary of Theology de Baker.[15] Tanto Harrison quando John D. Davis (em seu Dictionary of the Bible) listam Jo 3.16 como se referindo à humanidade, mesmo sendo presbiterianos.

Tudo isto é desastroso aos defensores da Expiação Limitada. Eles têm se aventurado a colocar-se acima da sabedoria combinada de nossos léxicos, enciclopédias e dicionários, quando atribuem um outro significado para a palavra kosmos, para apoiar seu sistema teológico. Esta inovação se assemelha à canonização dos apócrifos da parte dos romanistas. Quando eles tinham promovido idéias que não se encontravam na Bíblia, mas que apareciam nos apócrifos, eles os declararam inspirados, para que pudessem ter prova “bíblica&rdqeo; para seus dogmas extra-bíblicos. Dificilmente esperamos nossos irmãos se responsabilizarem pela reescrita de nossos léxicos, enciclopédias e dicionários. Até então, entretanto, eles não deviam alegremente ignorar o julgamento de estudiosos imparciais, que não têm interesse nessa questão. Veja as páginas 75-80.

Notas:

[5] Trench, Synonyms of the N.T. (8a. ed., revisada, Londres, 1876), pp. 206-208.

[6] Kittel, Theological Dictionary of the N. T. (Grand Rapids, 1965), Vol. III, pp. 868-895.

[7] Vine, Expository Dictionary of N. T. Words (Westwood N. J., impressão de 1966), p. 233.

[8] Vincent, Word Studies in the N. T. (New York, 1887; Grand Rapids, 1969), Vol. II, p. 45.

[9] Edward Robinson, A Greek and English Lexicon of the N. T. (Londres, 1836), pp. 455f.

[10] J. H. Thayer, Greek-English Lexicon of the N. T. (Nova York, 1893), pp. 356f.

[11] Alex. Souter, Pocket Lexicon to the Greek N. T. (Oxford, ed. de 1925), pp. 138f.

[12] G. R. Berry, Interlinear Greek-English N. T. (Chicago, 1944), p. 57.

[13] Arndt-Gingrich, A Greek-English Lexicon of the N. T. (Chicago, 1952), pp. 446-448.

[14] Abbott-Smith, Manual Greek Lexicon of the N. T. (Edinburgo, 1921), p. 255.

[15] The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge (Nova York, 1908), Vol. XII, pp. 428-430; Bible Dictionary de cinco volumes de Hasting (Nova York, 1909), Vol. IV, pp. 937-940; Dictionary of the Bible de Hasting (um vol., Nova York, 1920), pp. 977f.; Dictionary of the Apostolic Church de Hasting (Nova York, 1918), Vol. II, pp. 693-695; International Standard Bible Encyclopedia (ed. James Orr; Grand Rapids ed. 1957), Vol. V, pp. 3108f; The New Bible Dictionary (IVF, Londres, 1962), pp. 1338-1340; Dictionary of Theology (Baker, Grand Rapids, 1960), p. 560.


3. A OFERTA UNIVERSAL DO EVANGELHO


O ensino e exemplo do Novo Testamento claramente autorizam a oferta de salvação a todos os homens sem distinção – tão claramente que a maioria (se não todos) dos defensores de uma expiação restrita se sentem obrigados a pregar o Evangelho livremente a todos. Alguns deles se esforçam para provar que não há nenhuma inconsistência entre as duas coisas; destes o escocês George Smeaton (c. 1869) e o americano Louis Berkhof são exemplos.[16]

Mas outros confessam que há um problema aqui; entre estes podem ser mencionados os estudiosos escoceses Thomas J. Crawford, Professor de Teologia na Universidade de Edinburgo, William Cunningham, Professor de História Eclesiástica em New College, Edinburgo, e Robert T. Candlish, Diretor (desde 1862) do New College.


Crawford, cuja ótima obra sobre A Expiação tem sido tão elogiada, diz:

“Não pode ser questionado que Seu (de Deus) comportamento é de uma figura paterna em relação à toda raça caída de Adão sem distinção, quando O percebemos dando Seu único Filho com uma propiciação suficiente para os pecados de todo o mundo.”[17]

Cunningham sinceramente diz:

“Completamente admitimos que nas Escrituras, os homens, sem distinção e sem exceção, têm a salvação, e tudo que leva a ela, oferecida ou ofertada a eles – que eles são convidados a vir para Cristo e receber o perdão, - e assegurados que todos que aceitam a oferta, e cederem ao convite, receberão tudo necessário para o seu bem-estar eterno."

"Completamente admitimos que Deus na Bíblia faz tudo isto, e autoriza e requer que façamos o mesmo ao lidarmos com nossos pares.... Deus comandou que o Evangelho seja pregado a toda criatura; Ele requer de nós que proclamamos aos nossos pares, sem qualquer distinção, e em todas as variedades de circunstâncias, as boas novas de grande alegria, - para oferecer a eles, em Seu nome, perdão e aceitação através do sangue da expiação, - para convidá-los a vir para Cristo, e recebê-los, - e participar de tudo isto com a certeza de que “quem quer que for a Ele, de maneira nenhuma será lançará fora.”

Ao mesmo tempo, o Professor reconhece que não “entende completamente todos os motivos e razões” dos comandos de Deus a Seus mensageiros.[18] Em resumo, ele não é capaz de explicar como é que a salvação deve ser oferecida àqueles por quem ela não foi proporcionada.

Candlish declara:

“Que a morte de Cristo tem uma certa referência a todos os homens universalmente – que ela tem uma certa relação até sobre os perdidos – devemos defender e manter, pois sustentamos que ela lança as bases para a oferta do Evangelho a todos os homens universalmente, e lança as bases para que a oferta seja honesta e livre da parte de Deus. Isto não poderia ser, sem alguma espécie de relação existente entre a morte de Cristo e todo homem impenitente e descrente que é chamado para receber o Evangelho.”[19]

De fato há um problema, e um descomunal demais para ser resolvido mesmo com várias palavras. Pois é impossível explicar por que somos comandados a pregar o Evangelho (Boas Novas) a todos, se Cristo não morreu por todos, e isto não requer nenhum advogado da Filadélfia para mostrar isso. Qualquer um pode ver isto por si mesmo.

John Macpherson, um teólogo presbiteriano escocês, não mede as palavras sobre esta questão. Ele diz claramente:

“Apesar dos elaborados argumentos e alegações daqueles que favorecem a concepção mais restrita, parece impossível sugerir qualquer argumento inteligível ou apresentar qualquer razão satisfatória para a oferta universal da salvação, exceto assumindo que na morte de Cristo houve uma expiação para o pecado que satisfez a Deus, para que aquele que crê descubra que a obra feita por Ele em quem ele crê – a morte que Ele sofreu – é para ele perante Deus uma válida satisfação objetiva, e que Cristo morreu por todos, para que todos que crer possam ser salvos.”[20]

Em outro lugar, Macpherson, um homem que cuidadosamente pesava suas palavras, não se conteve de dizer:

“Nós... sentimos completamente autorizados a intitular a doutrina de nossos Padrões de, não modificado, mas Calvinismo moderado... A Confissão de Westminster, em resumo, apresenta um Calvinismo puro e simples, desimpedido pelas opiniões particulares e conceitos favoritos de calvinistas individuais.”[21]

Outro famoso escocês, William L. Alexander, membro da comissão de Revisão do Velho Testamento desde sua fundação em 1870, declarou com a mesma força:

“Nesta suposição, os convites e promessas gerais do Evangelho são sem base adequada, e parecem como uma mera zombaria; uma oferta, em resumo, do que não foi proporcionado. Não serviria dizer, em resposta a isto, que como estes convites são realmente dados, somos autorizados, pela autoridade da Palavra de Deus, a incitá-los, e justificados em aceitá-los; pois isto é mera evasão.”[22]

Tal é a justificativa fútil de Cunningham.

Até Charles Hodge se sente obrigado a confessar:

“Ele morreu por todos... para que Ele pudesse lançar as bases para a oferta de perdão e reconciliação com Deus, sob a condição da fé e o arrependimento.”[23]

Ao fazer esta confissão inesperada, o teólogo americano do século dezenove estava apenas repetindo a declaração de Zanchius, o reformador europeu do século dezesseis:

“Não é falso que Cristo morreu por todos os homens: pois a paixão de Cristo é oferecida a todos no Evangelho.”[24]

Estas duas idéias, da Expiação Limitada e Oferta Universal, criam uma tensão grande demais para o mais hábil dos homens da Redenção Particular aliviar. Pois, como Deus pode autorizar Seus servos a oferecer perdão aos não-eleitos se Cristo não o comprou para eles? Este é um problema que não incomoda aqueles que acreditam numa Redenção Geral, pois é mais razoável proclamar o Evangelho a todos se Cristo morreu por todos.

Os defensores da Expiação Limitada atribuem o problema a Deus, Que, eles dizem, disse a eles em Sua Palavra que Cristo morreu somente pelos eleitos, e todavia que eles devem oferecer salvação a todos. Eles honram a Ele por humildemente acreditar em ambos, sem qualquer tentativa de reconciliá-los. Nós, por outro lado, atribuímos o problema a eles, que, nós dizemos, têm interpretado incorretamente as Escrituras quanto à extensão da Expiação. Nós, de nossa parte, honramos a Deus por negar que Ele tenha proferido revelações mutuamente exclusivas.

Disto podemos estar seguros: que embora todas as aparentes contradições são harmonizadas na mente divina, nenhuma contradição real é. As mesmas coisas que são contrárias ao senso comum na mente do homem são também contrárias ao modo de pensar de Deus, pois o homem foi feito à Sua imagem. É contrário ao senso comum pensar que a mesma pessoa seja como Cristo e como Satanás; que uma figura geométrica particular seja de três e quatro lados ao mesmo tempo; que Colombo descobriu a América em 1492 e em 1942. Igualmente, é irracional sustentar que Deus oferece salvação a todos se Ele não proporcionou salvação a todos, pois as duas idéias estão basicamente se contradizendo. Elas não constituem uma aparente contradição, mas uma contradição real.

Aqueles que negam a Redenção Geral não podem dizer a qualquer pecador, “Cristo morreu por você,” visto que ele pode ser um dos não-eleitos. Todavia a história do evangelismo é rica de exemplos de pecadores insensíveis que se desmancharam sob tal pregação. De fato, os resultados não autenticam a mensagem, mas esses resultados devem provocar hesitação da parte daqueles que a criticam.

Notas:

[16] Smeaton, Doctrine of the Atonement (1868; reimpresso pela Grand Rapids, 1953), p. 374d; Berkhof, Systematic Theology (1941; ed. rev. 1946), pp. 397d-398.

[17] Crawford, The Fatherhood of God (Edinburgo, 1868), p. 137. Veja também pp. 365-370 Nota K, “A Suficiência da Expiação para todos os pecadores.”

[18] Cunningham, Historical Theology (1862; ed. Banner of Truth, 1960), Vol. II, Cap. XXIV, Sec. X, pp. 343-48.

[19] Candlish, The Atonement: its Reality, Completeness and Extent (2a. ed., Edinburgo), p. 137.

[20] Macpherson, Christian Dogmatics (Edinburgo, 1898), p. 367.

[21] Macpherson, The Confession of Faith, p. 26.

[22] Alexander, A System of Biblical Theology (1888), Vol. II, p. 111.

[23] Hodge, Systematic Theology (Nova York, 1871; ed. Grand Rapids, 1946), Vol. II, p. 558.

[24] Zanchius, Miscellanea Tract. De Praed. Sanct., p. 14. Citado por Davenant, The Death of Christ (1650; no Vol. II de sua On the Colossians, ed. Allport, Londres, 1832), p. 548.

 
 
 Capítulo V



Mais Temas Doutrinários



Ainda há vários tópicos relacionados com nosso estudo que precisam de comentários, e são a estes que nos viramos agora.



1. PROVISÃO E POSSE


Os defensores da Expiação Limitada são obrigados a reconhecer que a salvação para os eleitos foi proporcionada muito tempo antes deles tomarem posse dela. Eles concordam que foi proporcionada no dia que Cristo morreu numa cruz romana fora dos portões de Jerusalém. Todavia, milhões de eleitos, vivendo centenas de anos mais tarde, não a possuem antes que se arrependam e creiam. Então, não há dúvida de que a provisão do benefício e sua posse são duas coisas distintas.

Agora, os homens da Redenção Geral aplicam a mesma distinção aos não eleitos. Eles dizem que quando Cristo morreu, Ele proporcionou salvação a todos, incluindo os não eleitos. Eles sustentam que o que Ele sofreu pelos eleitos comprou salvação para os não eleitos também, não havendo necessidade de sofrimento adicional. Como Ele foi uma Pessoa infinita, o sofrimento de Cristo tinha valor infinito, e conseqüentemente, foi mais do que suficiente para ambos, eleitos e não eleitos, realmente, para muitas raças de homens. Remeto o leitor ao capítulo III.3, sobre “Cristo morreu por nossos pecados” para mais observações sobre esta questão.

Dessa forma, os não eleitos, como os eleitos, têm a salvação proporcionada, mas eles não a possuem sem arrependimento e fé. Eles nunca se arrependem e crêem, embora as boas novas da provisão de Cristo sejam proclamadas a eles no poder do Espírito Santo. Sua recusa para assim fazer não constitui nenhuma frustração da parte de Deus, visto que Ele poderia induzi-los a entregar-se e confiar, se Ele escolhesse. Por que Ele induz alguns a render-se ao Evangelho, e não outros, está entre as coisas secretas que pertencem ao Senhor nosso Deus. Mas o ponto principal agora é que há uma distinção entre a provisão da salvação e sua posse.

Aqui é apropriado responder à afirmação repetida que a propiciação de Cristo realmente, e não apenas potencialmente, propicia, e que assim Sua reconciliação reconcilia, Sua redenção redime, e Sua expiação expia. John Murray diz que a morte de Cristo deve ser considerada como “efetiva” propiciação, reconciliação e redenção, e que “a expiação é substituição eficaz.”[1] É pertinente perguntar por que o autor intitula seu livro assim se a redenção realizada é redenção aplicada? Nós sustentamos tão vigorosamente quanto ele que a propiciação de Cristo propicia, Sua reconciliação reconcilia, Sua redenção redime, e Sua expiação expia no que concerne seu valor intrínseco, mas não com referência a qualquer pecador, a menos que ele se arrependa e creia. Sem estes atos, até os eleitos são apenas potencialmente os recebedores destes benefícios.

Os próprios homens da Expiação Limitada não convidam os pecadores a entrar no benefício da propiciação de Cristo pela fé (Rm 3.25), lhes implora para que se reconciliem com Deus (2Co 5.20), rogam para que venham debaixo do sangue expiador? Agora, o que isto significa senão buscar trazer os homens ao lugar onde a propiciação, reconciliação, redenção e expiação de Cristo, completamente eficazes em si mesmas, se tornam completamente efetivas para eles?

Agora, até os eleitos não têm, na verdade, posse destes valores até que o Espírito os persuade a se arrepender e crer. Até então, toda a obra salvífica de Cristo é deles somente potencialmente. Em outras palavras, Sua morte tem somente proporcionado estes benefícios para eles; a aplicação é dependente de seu arrependimento e fé. Cremos que estes mesmos benefícios são igualmente proporcionados para os não eleitos, que nunca os desfrutam em sua experiência, por causa de sua impenitência e incredulidade. Eu, também, sou um homem da Expiação Limitada, se me permitirem empregar o adjetivo para a posse da expiação, antes que para a sua provisão.


2. OS ANJOS CAÍDOS


Os homens da Expiação Limitada, que negam que Cristo morreu pelos não-eleitos ou pelos anjos caídos, não obstante ativamente sustentam que estas duas classes não mantêm a mesma relação com a cruz de Cristo. Hodge diz:

“Os agostinianos prontamente admitem que a morte de Cristo tinha relação com o homem, com toda a família humana, que não tinha com os anjos caídos.... Ela... assegura para toda a raça como um todo, e para todas as classes de homens, inumeráveis bençãos, tanto providenciais quanto religiosas... Há um sentido, por essa razão, em que Ele morreu por todos.”[2]

Novamente, ele diz:

“Ele morreu por todos, para que Ele possa... assegurar aos homens as inumeráveis bençãos, assistindo seu estado sobre a terra.”[3]

Similarmente, Murray:

“Os incrédulos e reprovados neste mundo desfrutam numerosos benefícios que fluem do fato que Cristo morreu e ressurgiu novamente... Os benefícios inumeráveis que são desfrutados por todos os homens indiscriminadamente se relacionam com a morte de Cristo e podem ser ditos resultar dela de um modo ou de outro.”[4]

Não precisamos nos esforçar para descobrir os vários benefícios proporcionados aos não-eleitos, que estes homens atribuem ao sacrifício feito no Calvário; nós simplesmente notamos que, em sua opinião, eles não incluem a salvação, pois eles se referem exclusivamente à vida que agora é. Por mais que os não-eleitos diferem dos anjos caídos em relação a estas inumeráveis bençãos, eles não, no pensamento destes professores, diferem em relação aos benefícios que são espirituais e eternos. Na sua opinião, Cristo não mais morreu pelos não-eleitos do que pelos demônios, no que se refere às últimas vantagens.

Visto que o Filho de Deus não morreu pelos anjos caídos, eles não podem ser condenados por não depositar sua confiança nele como seu Redentor. Como Ele não é nem mesmo potencialmente um Redentor para eles, eles não podem, com justiça, ser condenados por não crer nele.

Mas o mesmo não pode ser dito dos não-eleitos: eles são condenados por não confiar em Cristo como Redentor. Assim temos em Jo 3.18, que é considerado em nosso próximo capítulo: “Quem crê nele não é julgado; mas quem não crê, já está julgado; porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.” Este “crê no nome” de Cristo é uma expressão que significa confiar nele como Salvador. Jo 1.12 deixa isto claro: “Mas, a todos quantos o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.” Em Jo 20.31 o apóstolo fala “para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” João emprega a mesma expressão em sua primeira epístola quando relata o mandamento de Deus, “que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 3.23). Assim, também, em 1Jo 5.13: “Estas coisas vos escrevo, a vós que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna.”

O fato que a culpa não pode ser atribuída aos anjos caídos por não crer em Cristo, como Redentor, mas pode ser atribuída aos não-eleitos, demonstra que as duas classes não se posicionam, afinal de contas, na mesma relação com Seu ato redentor. Em outras palavras, temos aqui uma simples prova da falácia da Expiação Limitada. Segue, então, que a distinção entre a provisão dos benefícios temporais e eternos de Cristo para os não-eleitos não é real, mas apenas imaginários. Cristo proporcionou ambos para eles, assim como para os eleitos, embora eles deixam de desfrutar a última espécie por causa de sua obstinação inexcusável. Os primeiros são doados, apesar de tudo.

Nenhuma base bíblica existe para rasgar a túnica redentora de Cristo. Se alguns benefícios foram proporcionados para todos os homens, por que não todos? Os soldados romanos se abstiveram de dividir o manto de Cristo, e nós evitamos desmembrar Sua obra expiadora. Paulo uma vez perguntou, “Cristo está dividido?” (1Co 1.13), e nós perguntamos, “Sua cruz está?” Nós prontamente admitimos que a cruz tem uma especial referência aos eleitos, como Hodge afirma,[5] mas que isto é diferente de dizer que ela tinha um maior valor para eles. Leon Morris, em “The Themes of Romans,” diz, “É o que Deus fez pela salvação de todos os homens quem quer que eles sejam, que é o tema de Paulo” (itálico meu);[6] e com isto nos sentimos obrigados a concordar.


3. A FUNÇÃO DA FÉ


É fortemente asseverado pelos homens da Expiação Limitada que a cruz salva, como se não acreditássemos completamente no mesmo. De fato, a cruz salva, e no mesmo sentido em que um remédio cura. (Esta ilustração era comum entre os Primeiros Pais.) A cruz é o meio gracioso que o Deus soberano planejou para a salvação humana, assim como um medicamento composto é o meio misericordioso que o bondoso médico planejou para a cura do corpo. Mas é o bondoso médico que aplica o remédio; o remédio não se aplica sozinho. Assim é o Deus soberano que aplica a virtude da cruz nos homens; a cruz não efetua sua própria aplicação. Não atribuímos ao meio o que pertence ao autor.

Agora, geralmente o médico não força seu remédio nos pacientes, mas solicita sua cooperação, pela qual eles voluntariamente o recebem. E Deus, em qualquer caso, não coage os pecadores a se submeter à provisão que Ele fez, mas induz, assim como solicita, sua cooperação, na qual eles livremente escolhem recebê-la. Dessa forma, a fé é a mão que aceita o remédio celestial oferecido pelo Grande Médico que tanto planejou o remédio quanto o oferece.

Sobre este ponto a Bíblia é muito clara: que as bençãos compradas pelo sangue de Cristo não se tornam nossas até, e a menos que, colocamos nossa confiança nele. Admitimos, sim, sustentamos, que esta confiança, enquanto nossa própria ação pessoal, é operada em nós pelo Espírito Santo, de acordo com o eterno propósito de Deus. Fé, por essa razão, é representada na Escritura como o meio pelo qual todos os benefícios comprados são conferidos a nós. A remissão de pecados é para aquele que crê (At 10.43). Assim é aquela justiça pela qual os homens são justificados (Fp 3.9). Eles também são santificados pela fé (At 26.18), e por ela obtêm a vida eterna (Jo 3.15; 1Tm 1.16), a adoção de filhos (Gl 3.26), acesso a Deus (Rm 5.2), proteção (1Pe 1.5), vitória (1Jo 5.5), o selo (Ef 1.13), repouso (Hb 4.3), e a salvação (Ef 2.8). Qualquer um pode acrescentar ao precedente usando uma concordância nas palavras “crer” e “fé.”

Owen pergunta por que nem todos são libertos da punição de todos os seus pecados se Cristo sofreu por todos os pecados de todos os homens. Então ele acrescenta: “Você dirá: Por causa de sua incredulidade, eles não crêem,” e acrescenta em seguida:

“Mas esta incredulidade é pecado ou não? Se não é, por que eles devem ser punidos por sua causa? Se esta incredulidade é pecado, Cristo sofreu a punição devida a ela, ou não? Se Ele sofreu, então, por que esse pecado os impede, mais do que quaisquer outros pecados pelos quais Cristo morreu, de participar dos benefícios da morte dele? Se Cristo não sofreu por esse pecado, isto significa que Ele não morreu por todos os pecados deles.”[7]

Supõe-se que este é um caso de pura lógica incontestável. Mas vamos analisá-la. Em primeiro lugar, observe que Owen não fala da incredulidade diária, mas da incredulidade final. A incredulidade final dos homens é pecado ou não? Certamente é, e eles seguramente vão ser punidos por ela. Cristo sofreu a punição devida a esta incredulidade final? Não. Por que não? Porque é um pecado que não pode possivelmente ser perdoado. Deus não pode fazer algumas coisas – não por causa de qualquer fraqueza nele, mas por causa de Sua própria perfeição. Somos informados de que Ele não pode mentir (Hb 6.18). Ele não pode contradizer a Si mesmo. Ele não pode contrariar Sua própria natureza. Ele não pode perdoar pecado não arrependido. Para Deus perdoar uma pessoa que nunca cessa de desafiá-lo, seria para Ele desonrar-se, e isso é impossível. Deus não pode perdoar tal pecado. O próprio Cristo não fala do “pecado eterno,” que “nunca será perdoado” (Mc 3.29)?

O pecado dos anjos caídos parece ser desta extrema natureza, pois eles transgrediram contra a maior medida de luz concedida às criaturas. Eles pecaram quando em estado de glória, e imediatamente debaixo do próprio olho de Deus. Tal pecado é, em sua própria natureza, imperdoável. Concluímos, portanto, que a ausência de redenção para os anjos caídos não deve ser atribuído – como comumente é – à soberania de Deus, mas à natureza de seu pecado. O mesmo vale para os pecados da blasfêmia contra o Espírito Santo e a incredulidade final. Concluímos que Deus proveu expiação para todos os pecados que são perdoáveis. Estes são todos os pecados, de qualquer natureza, que foram cometidos pelos eleitos. Os mesmos pecados, cometidos pelos não-eleitos, são cobertos pelo mesmo sacrifício, como mostrados em um capítulo anterior.

Então Cristo não morreu por todos os pecados de todos os homens? Não se os pecados de blasfemar o Espírito e a impenitência final estiverem incluídos. Owen sabia muito bem que ninguém acredita que Ele morreu por estes pecados, que são intrinsecamente imperdoáveis. Nem mesmo os eleitos poderiam ser perdoados, supondo que eles pudessem cometê-los. Todavia Cristo morreu pelo pecado da incredulidade diária, pois até Saulo de Tarso foi perdoado. Todos que, como ele, renunciam sua incredulidade, obtêm perdão, da mesma forma que eles obtêm perdão por qualquer outro pecado devidamente arrependido. Ninguém defende que Deus perdoa qualquer pecado enquanto alguém continua praticando-o. Assim, a lógica incontestável de Owen mostrou ser apenas uma falsa aparência de lógica afinal de contas.

O ensino que a expiação é para todo pecador que confia em Cristo implica que é a fé que faz Cristo ter morrido pelos pecadores, ao passo que é a morte de Cristo pelos pecadores que lhes garante crer nele. Não é a expiação, mas o perdão, que é dependente da fé.

Devo dizer algo aqui sobre o lugar da Palavra de Deus na salvação humana. Que ela tem um lugar é claro de várias passagens. Por exemplo, 1Co 4.15: 

“Eu pelo evangelho vos gerei em Jesus Cristo.” 

Tg 1.18 diz: 

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade.” 

Entendemos de Cl 1.5 que a Palavra da verdade é “o Evangelho,” e de 1Co 15.1-4 que o Evangelho é as boas novas que Cristo “morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.” Por isso, Pedro escreve de nós 

“sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” (1Pe 1.23).

Rm 10.13 declara que 

“Todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo.” 

O próximo verso levanta inúmeras questões: 

“Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” 

O apóstolo aqui fala, não da fé salvadora, mas da fé histórica, de acordo com a qual uma pessoa credita uma mensagem comunicada a ele. O verso 17 se relaciona com o mesmo tipo de fé: 

“De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus.” 

Então, invocar o Nome do Senhor se encontra entre este tipo de fé, e ser salvo. Se o ato de crer, ou a fé, aqui falada, fosse do tipo salvadora, então a pessoa seria salva antes de invocar, e não depois. Então a ordem é simples: primeiro há a mensagem pregada, dando ao ouvinte um entendimento das verdades sobre Cristo; então há o ouvinte informado invocando o Nome do Senhor, e finalmente há o feliz resultado na salvação daquele que invoca.

O propósito de pregar aos não-salvos é contar a eles os fatos que salvam. Esta é a razão para a Grande Comissão como relatado pelos evangelistas, e por sua implementação como visto em Atos. Aqueles que confiaram em Cristo foram salvos (1Co 1.21); o resto não foram (Jo 3.36). 1Pe 3.1 menciona uma exceção à regra geral.


4. A FÉ FOI COMPRADA?


Alguns homens da Redenção Geral, incluindo o bispo Davenant, têm defendido, não apenas que Cristo morreu com uma dupla intenção – para tornar a salvação possível a todos e certa a alguns – mas também que, por Sua morte, Ele fez uma dupla transação, comprando algumas coisas para alguns, e alguns extras para os eleitos. Entre estes extras eles listam a fé, por meio da qual a salvação proporcionada para todos é infalivemente aplicada em alguns. (Todos os homens da Expiação Limitada defendem que a fé dos eleitos foi comprada para eles.)

Agora, de fato, parece razoável acreditar que, visto que todos os benefícios recebidos pela fé foram comprados pelo sangue de Cristo, a própria fé deveria ser considerada como comprada também. Os frutos seriam comprados, mas não a raiz? Entretanto, se a fé foi comprada, é o único benefício comprado não recebido pelo ato de crer, pois, obviamente, não obtemos a fé pela fé. Não, neste caso, obtemos a raiz sem fé, e seus frutos pela fé. A fé é nossa simplesmente por uma doação soberana graciosa, e não por compra.

Sei que é argumentado que a fé deve ser um benefício comprado, pois (é dito) os pecadores não podem ter nenhum benefício quaisquer que sejam a menos que sejam comprados. Mas este argumento é infundado. O próprio primeiro passo na real provisão de nossa salvação foi a Santa Conceição, na qual a humanidade do Filho de Deus foi derivado da Virgem Maria, que foi um membro da raça caída de Adão. Owen, em seu magnífico tratamento da relação do Espírito Santo com essa humanidade, mantém que ela foi purificada de sua depravação pelo Espírito no instante em que foi assumida pelo Filho e feita uma parte integral de Sua Pessoa.[8] Mas Owen não diz nada sobre esta santificação da natureza humana de Cristo sendo comprada, embora nós, em nossa regeneração, somos feitos participantes desta mesma santidade. Devemos acreditar que Cristo, por Seu sofrimento subseqüente, comprou a santidade com a qual Sua humanidade tinha sido dotada em Seu ato da encarnação anos antes? Em outras palavras, Cristo redimiu Sua própria humanidade? Nenhum cristão ortodoxo ousaria dizer que sim.

O próprio último passo na real provisão de nossa salvação foi o Sacrifício Expiador, no qual a humanidade purificada de Cristo foi livremente oferecida aos homens pecadores. Este grande ato foi completamente imerecido da parte deles. Foi, por essa razão, um benefício comprado para eles, ou simplesmente uma provisão soberana graciosa ao seu favor? O último, obviamente, pois a cruz não foi algo resultante de compra, mas puramente da própria vontade bondosa de Deus. Agora, visto que tanto o primeiro quanto o último passo na real provisão de nossa salvação foram benefícios para os pecadores que não foram comprados, mas foram somente soberanamente concedidos, o argumento que a fé deve ter sido comprada é invalidado. Deus, tendo na eternidade passada determinado que certas pessoas devessem ser salvas, meramente confere fé a estas pessoas quando bem entender.

Quando pedimos razões textuais para ver a fé como um benefício comprado, o único texto citado é, creio, Fp 1.29: “Vos foi concedido, por amor de Cristo, não somente o crer nele, mas também o padecer por ele.” A preposição (huper) é usada duas vezes, e ambas as vezes em relação a Cristo. É por Ele que os filipenses sofreram perseguição, e por Ele que eles criam nele. Tanto crer quando sofrer foram em benefícios dele. Deus concedeu a eles estes altos privilégios por causa de Cristo. Assim, o verso não diz nada sobre a fé deles ser algo de Cristo, mas algo para Ele.

Nós, por isso, diferimos dos defensores da Expiação Limitada em sua alegação que a transação do Calvário foi uma dupla transação, sendo uma para os eleitos e uma outra, mais exígua, para os não-eleitos. Mantemos que houve uma dupla intenção em uma única transação, de acordo com a qual a provisão da salvação para todos foi pretendida ser eficazmente aplicada nos eleitos, mas não aos não-eleitos. Uma única transação com uma dupla intenção esclarece, propomos, toda afirmação bíblica sobre este vasto assunto.


5. REFERÊNCIAS PRIMÁRIAS E SECUNDÁRIAS


Que Cristo devesse morrer sem a certeza de que algumas pessoas seriam salvas é um conceito que nem nós nem nossos irmãos discordantes podem tolerar. Nós, não menos do que eles, defendemos que Sua morte não será em vão, mas que “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito” (Is 53.11). Além disso, nós, não menos do que eles, defendemos que a morte de Cristo não será em vão porque Deus soberanamente ordenou alguns à vida eterna (At 13.48). Nenhum de nós acredita que Deus previu que alguns de si mesmos creriam, e por essa razão enviou Jesus para morrer por eles; pois nenhum de nós acredita que quaisquer pecadores depravados creriam de si mesmos, à parte da graça persuasiva de Deus. Por essa razão, ambos defendemos que algumas pessoas foram incondicionalmente predeterminadas a ser salvas, como as Escrituras claramente declaram (por exemplo, Rm 8.29-30; Ef 1.4; 1Ts 1.4; 2Ts 2.13). Mas isto não significa que Deus preordenou que qualquer pessoa seria eternamente condenada; sua condenação resulta de sua ação, não de Deus. A predestinação é somente positiva, para vida; nunca negativa, para a morte. Os homens iriam para o inferno mesmo se não houvesse predestinação, mas ninguém iria para o céu. Por esta razão, os santos devem apreciam esta doutrina, que muitos deles, compreendendo-a mal, desprezam.

Mas agora, para que as pessoas escolhidas para ser salvas na eternidade passada devessem ser salvas no devido tempo, era necessário que o Filho de Deus tomasse a natureza deles; dessa forma assumisse as obrigações deles para sofrer a pena da lei violada do céu e satisfazer suas exigências normativas; e, finalmente, cumprisse aquelas obrigações em favor deles.

Visto que Cristo é uma Pessoa infinita, o valor de Seu cumprimento foi infinito, e, por isso, superabundantemente suficiente para proporcionar para os habitantes pecadores de qualquer quantidade de mundos. Portanto, o valor de Sua obra redentora é bem mais que suficiente para cuidar da necessidade dos não-eleitos assim como das dos eleitos. É evidente, entretanto, que se não tivesse havido nenhuma pessoa eleita para ser salva, o Filho de Deus não teria vindo, e, assim, não haveria nenhum excedente existente para os não-eleitos. A provisão para a última classe dependia da provisão para a primeira.

Observamos, por essa razão, que a obra redentora de Cristo foi primeiramente para os eleitos, e somente secundariamente para o resto dos homens. Foi principalmente para esses escolhidos para salvação, e somente subordinadamente para os não-eleitos. Foi destinado a tornar a salvação certa para a primeira classe, mas somente possível para a última. Em ambos os casos, arrependimento e fé são exigidos, mas somente no primeiro eles são divinamente induzidos. Quem quiser pode vir, mas somente os eleitos virão. Assim, a intenção de Deus na morte de Cristo não foi a mesma com referência aos dois grupos.

Mas ainda que o plano de Deus na morte de Cristo foi duplo, não devemos pensar que a própria morte também foi; pois Cristo não morreu em um sentido para os eleitos, e em um outro sentido para os não-eleitos. Ele morreu precisamente no mesmo sentido para ambos os grupos – suportando o julgamento de Deus contra o pecado humano – todavia, o valor desse fato é apropriado pelos eleitos, mas não pelo resto dos pecadores.

Assim, o sentido em que Cristo morreu pelos eleitos e não-eleitos foi único, mas Seu objetivo foi duplo. Ele pretendeu pela Sua morte trazer os eleitos infalivelmente à glória, mas nunca pretendeu por ela levar os não-eleitos lá. Tudo que Ele propôs fazer por eles foi tornar possível eles chegarem lá, contanto que se arrependam e creiam.

Conseqüentemente, não temos nenhuma disputa com aqueles que insistem que a expiação “tinha referência especial aos eleitos,”[9] como Hodge diz. Ele pergunta:

“Teve a morte de Cristo uma referência aos eleitos que não teve aos outros homens? Ele veio ao mundo para assegurar a salvação daqueles dados a Ele pelo Pai, de forma que os outros efeitos de Sua morte são meramente secundários ao que foi feito para a consecução desse objetivo?”[10]

Se por “secundários” ele quer dizer “subordinados,” respondemos às duas perguntas na afirmativa.


O que negamos é que Deus soberanamente decretou que Sua vasta provisão redentora devesse ser inaplicável aos não-eleitos, porque Ele sabia que eles não utilizariam de seu valor salvífico. Ao invés, Ele autorizou Seus servos a oferecer salvação a todos os homens. Seu triste estado é culpa deles próprios, não de Deus. Ele lhes oferece vida eterna, mas eles obstinadamente se recusam a vir para Cristo para obtê-la (Jo 5.40). Isto é um tanto diferente de dizer que Cristo morreu apenas para os eleitos. Admitimos, sim, afirmamos, que Sua morte teve uma referência especial aos eleitos, mas vigorosamente negamos que ela teve uma referência exclusiva a eles.

Concordamos com Hodge quando ele diz que Cristo “fez tudo que era necessário no que concerne a satisfação à justiça, tudo que é exigido, pela salvação de todos os homens,” e acrescenta que “todos os agostinianos podem, juntos com o Sínodo de Dort, dizer, Ninguém perece por falta de uma expiação.”[11] Este é o ponto crucial.


6. A INCAPACIDADE DO PECADOR


É comumente dito que o pecador de si mesmo não pode se arrepender nem crer. Uma das bases sobre a qual os homens apóiam esta afirmação é Jo 6.44: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer.” Escrevendo sobre este assunto, Pink diz:

“Deve ser claramente entendido que, quando falamos da incapacidade do pecador, não queremos dizer que se os homens desejassem vir a Cristo, eles não teriam a força necessária para realizar seu desejo. Não; o fato é que a incapacidade do pecador ou ausência de força é devida à falta de disposição para vir para Cristo, e esta falta de disposição é fruto de um coração depravado. É de primeira importância que distinguimos entre incapacidade natural e incapacidade moral e espiritual.... Por que é que o pecador não pode vir a Cristo a menos que seja trazido? A resposta é, Porque seu perverso coração ama o pecado e odeia Cristo.”[12]

Comentando sobre o mesmo texto, o bispo J. C. Ryle (1816-1900) diz:

“Do que esta incapacidade do homem consiste? Em que parte de nossa natureza interior esta impotência reside? Aqui está um ponto sobre o qual muitos erros surgem. Continuamente deixe-nos lembrar que a vontade do homem é a parte dele que está com defeito. Sua incapacidade não é física, mas moral. Não seria verdadeiro dizer que um homem tem um real desejo e quer vir a Cristo, mas falta-lhe força para isso. Seria muito mais verdadeiro dizer que um homem não tem força para vir porque não tem nenhum desejo ou vontade. Não é verdadeiro que ele viria se pudesse. É verdadeiro que ele poderia vir se quisesse (itálico meu). A vontade corrupta – a indisposição secreta – a falta de inclinação – são as reais causas da incredulidade. É aqui que se encontra o dano. A força que nos falta é uma nova vontade. É precisamente neste ponto que precisamos da atração do Pai.”[13]

Quando o bispo de Liverpool tratou mais extensivamente de Jo 6.44, ele observou similarmente:

“Quando nosso Senhor diz, Ninguém pode vir a mim, devemos cuidadosamente lembrar que é de incapacidade moral, e não física que Ele fala. Não devemos supor que alguém pode ter um desejo sincero e genuíno para vir a Cristo, e todavia seja impedido por alguma impotência misteriosa. A impotência se encontra na vontade do homem. Ele não pode vir porque não quer vir.”[14]

Similarmente sobre Jo 5.40:

“Milhares, em todas as épocas, estão constantemente trabalhando para mudar a culpa de sua condição de si mesmos. Eles falam de sua incapacidade para mudar. Eles dizem a vocês complacentemente que eles não podem deixar de ser o que são! Eles sabem, deveras, que estão errados, mas eles não podem ser diferentes! – Isso não funcionará. Tal conversa não resiste ao teste da Palavra de Cristo diante de nós. Os impenitentes são o que são porque não têm vontade de melhorar... A verdadeira razão por que os homens não querem vir a Cristo, e conseqüentemente morrem em seus pecados, é sua falta de vontade para vir.”[15]

Exemplos deste tipo de perversidade são encontrados em muitas passagens na Escritura. Em Gn 37.4 somos informados de que os irmãos de José “não lhe podiam falar pacificamente,” mas o ódio deles não era uma necessidade inevitável; eles não tinham que odiá-lo. É verdade que eles não podiam fazer outra coisa senão falar agressivamente a ele, visto que eles odiavam-no, mas eles podiam ter evitado odiá-lo. De fato, eles pararam de odiá-lo posteriormente. Em Jo 5.44 Cristo faz aos Seus inimigos uma pergunta pertinente: “Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do único Deus?” Devemos pensar que estes homens não podiam deixar de receber glória uns dos outros e que eles não podiam possivelmente buscar a glória que vem de Deus? Obviamente não. Nem podemos pensar que a incapacidade deles para crer era uma incapacidade absoluta. Era somente relativa; era uma incapacidade tal que eles podiam ter eliminado caso quisessem. Por essa razão era uma incapacidade criminosa, pela qual eles mesmos eram totalmente responsáveis.

É completamente verdadeiro que os pecadores se arrependem e crêem apenas porque foram divinamente induzidos a assim fazer, mas dizer que eles não queriam de si mesmos fazer estas coisas não significa que eles simplesmente não podem. No Julgamento Final, os homens não poderão exonerar-se por sua impenitência e incredulidade alegando falta de força, mas honestamente reconhecerão sua auto-determinação como a causa real. Eles não fazem porque não querem. Como o Dr. Griffith Thomas uma vez disse em meu ouvido: “Não é o poder da vontade dos homens que me preocupa, mas seu poder de não ter vontade.”

De um coisa não pode haver a menor dúvida, e é que na Escritura o pecador é constantemente tratado como se não fosse somente responsável, mas também capaz de fazer alguma coisa. Aqui estão alguns exemplos: “Escolhe a vida, para que vivas” (Dt 30.19); “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor” (Is 1.18); “Vinde, e convertei-vos de todas as vossas transgressões.... lançai de vós todas as vossas transgressões que cometestes contra mim; e criai em vós um coração novo e um espírito novo.... convertei-vos, pois, e vivei” (Ez 18.30-32); “Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos” (Ez 33.11); “Cuidai de vós mesmos, e não sejais infiéis” (Ml 2.16); “Se não vos arrependerdes, todos.... perecereis” (Lc 13.3, 5).

Além disso, na pregação apostólica do Evangelho, fala-se dos pecadores como se esperassem agir imediatamente – sem qualquer sugestão que, afinal de contas, eles estivessem sob alguma insuperável necessidade de não fazer nada. É simplesmente uma questão de registro que os pregadores primitivos não disseram a seus ouvintes que eles não tinham absolutamente nenhuma capacidade para fazer qualquer coisa em resposta ao chamado, convite, comando e ameaça de Deus. Mas não precisamos, por isso, dizer que estes homens inspirados eram pelagianos ou arminianos ou ambos. Todos precisamos tomar cuidado a fim de que não, como o “pensador brilhante e sagaz,”[16] William Archer Butler (1814-1848), disse, “Mantemos poucos textos tão próximos dos olhos que eles escondem o restante da Bíblia.”[17]

Acredita-se que a incapacidade total seja o resultado necessário da depravação total, mas não é. A depravação total somente significa que a totalidade das faculdades do homem foi afetada pelo pecado – não que suas faculdades foram totalmente arruinadas por ele. Se elas foram, então obviamente ele é incapaz de qualquer ação correta. Mas a Bíblia toda, como acabamos de observar, contradiz isto.

Mas vamos, por ora, supor que o pecador jaz sob uma impossibilidade absoluta de se arrepender e crer. Vamos imaginar que ele simplesmente não pode se dedicar a estes atos que são necessários à sua salvação. Essa incapacidade o prende em desespero? De maneira alguma, visto que Deus não é somente capaz de lhe conferir o poder necessário, mas também está disposto a agir assim. Tudo que o pecador incapaz tem que fazer é clamar a Ele pela capacidade necessária.

Não pode justificavelmente ser dito que o pecador é tão impotente que não pode nem mesmo clamar a Deus. Todos os dias pessoas ímpias Lhe imploram por livramentos temporais de vários tipos, e embora eles não tenham nenhuma promessa de resposta, todavia muitos obtêm o que pedem. Eu conheci casos como esses, e o leitor pode ter conhecido alguns também. Veja, por exemplo, Sl 107.23-30.

Agora, se os pecadores podem recorrer a Deus para suas necessidades físicas, eles podem – se somente desejarem – recorrer a Ele para concedê-los a capacidade para se arrepender e crer. E assim, até mesmo na hipótese de que lhes faltam qualquer poder para desempenhar estes atos essenciais, eles não estão sem meios de adquirir esse poder. Então, eles são tão responsáveis quanto se eles mesmos tivessem o poder.

Notas:

[1] Murray, Redemption, Accomplished and Applied (Grand Rapids, 1955), pp. 62-75.

[2] Hodge, Systematic Theology (Grand Rapids, 1946), Vol. II, pp. 545f.

[3] ibid., p. 558.

[4] Murray, op. cit., pp. 61f.

[5] Hodge, op. cit., pp. 544-546.

[6] Morris, “The Themes of Romans,” em Apostolic History and the Gospel (Exeter e Grand Rapids, 1970), p. 262.

[7] Owen, The Death of Death (1959), p. 62.

[8] Owen, Works (ed. Goold, 1850), Vol. III, Cap. IV, p. 168.

[9] Hodge, op. cit., Vol. II, p. 544.

[10] ibid., p. 546.

[11] ibid., pp. 556f.

[12] Pink, The Sovereignty of God (Grand Rapids, 1959), pp. 187f.

[13] Ryle, Expository Thoughts on the Gospels (1856-73; reimpresso Grand Rapids, 1900), Vol. III, pp. 383f. Thomas Scott diz que a deficiência do pecador para vir a Cristo “não é [por causa de] falta de capacidade natural.”

[14] Ryle, op. cit., p. 389.

[15] ibid., pp. 317, 320.

[16] The New Schaff-Herzog Religious Encyclopedia, artigo sobre William Archer Butler, Vol. II, p. 321.

[17] Citado em D. M. McIntyre, Spirit and Power (Londres, 1913), p. 10.


Capítulo VI


O Testemunho Bíblico I


Chegamos agora a uma análise mais cuidadosa das próprias Escrituras. Todos os leitores da Bíblia estão, obviamente, familiarizados com aquelas benditas partes que declaram que Cristo morreu pelos eleitos (tais como Jo 10.11; 11.51-52; At 20.28; Rm 5.8; 8.32; Ef 4.23, 25-27; Tt 2.14; 1Pe 1.18-21; 1Jo 2.2; 4.10). Mas, como foi freqüentemente observado, há outras partes que claramente declaram que Ele morreu por todos os homens. Isto é vigorosamente negado pelos homens da Expiação Limitada; é compreensível, visto que, de outra forma, o sistema construído por eles por meio de suposta lógica se desmoronaria.


Gn 3


Começo com Gn 3. Se considerarmos Adão como o cabeça natural da raça, ou como seu cabeça federal, todos nós consideramos ele e toda a humanidade como uma unidade, em todo o relato da criação e da queda. Como resultado, o que é verdadeiro dele é verdadeiro deles. Todos os homens foram criados em Adão, e todos os homens caíram nele. Os resultados da queda são igualmente comuns a ambos. Por causa de sua ligação com ele, todos – eleitos e não-eleitos – estão envolvidos tanto na culpa de Adão quanto em sua depravação; todos estão sob a sentença de morte e corrompidos em suas faculdades. Além disso, todos estão expostos aos prejuízos resultantes da maldição imposta sobre a natureza à sua volta. Então, seja com referência à criação, queda, culpa, depravação, desgraça ou morte, Adão e sua raça constituem uma única entidade.

Mas há um outro ponto importante para a história. Há a graciosa promessa de Deus referente à Semente da Mulher Que traria libertação aos caídos (v. 15). Seguimos a interpretação usual, que entende que a semente da mulher é uma pessoa (“Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”) – Cristo. Por isso rejeitamos a opinião de que esteja falando de Cristo e Seu povo (como Owen acreditava).[1] Se a semente da Mulher é uma pessoa, pareceria necessário entender que a semente da serpente também é uma pessoa – o Anticristo (como Pink).[2] Cristo ferir a cabeça da serpente (Satanás) significa seu ato de desfazer os danos da Queda. Disso, temos aqui a graciosa promessa de Deus de libertação aos caídos.

Agora, a teoria da Expiação Limitada exige que transtornamos a harmonia da história, dizendo que esta promessa, ao invés de pertencer a eleitos e não-eleitos, como todos os outros itens, diz respeito aos primeiros somente. Mantemos que esta mesma exigência serve para mostrar a falácia da teoria. O Filho encarnado é o dom de Deus para a raça, independente de como a maioria de seus membros possa tratá-lo. Como a Bíblia é o dom de Deus para a humanidade, e os homens fariam bem se considerassem como eles lidam com ela, da mesma forma Jesus Cristo é Seu dom a todos e eles seriam prudentes se saudassem-no e considerassem-no.

Que é assim, é ainda manifesto do fato que, quando o Filho de Deus se encarnou, Ele assumiu a natureza da raça – que é comum tanto aos eleitos quanto aos não-eleitos.

Ele chegou tão perto de um grupo como do outro. A humanidade assumida foi a humanidade de ambos, e conseqüentemente Ele representou ambos. Não poderia ser de outra forma, visto que Sua era a Humanidade universal. O bispo H. C. G. Moule (1841-1920) observa em relação a isto:

“É amplamente revelado que o Filho de Deus, em eterna relação com a Encarnação e a Expiação, tem ligação profunda e graciosa, não apenas com certos indivíduos, ou partes da raça, mas com o Homem. Para Ele, como o Verbo Eterno encarnado ‘para nós homens e para nossa salvação,’ todo homem está tão relacionado que tem o direito de dizer, ‘Eu sou dessa natureza que em Cristo é unida a Deus; eu sou desse mundo humano (1Jo 2.2) pelo qual Cristo é a propiciação; eu sou dessa humanidade que Ele redimiu.’”

Compare as palavras de Moule em outro lugar:

“Quando eu falo do 'por quem' de Cristo para os crentes, de forma alguma quero dizer que não haja tal coisa como seu 'por quem' para o HOMEM.”[3]

Assim, também, o bispo Davenant:

“Não deve ser negado que a morte e os méritos de Cristo, Que tomou a mesma natureza de todos, e experimentou a mesma causa de todos, são dessa maneira, que eles podem ser anunciados, oferecidos, e pela fé aplicados a todo indivíduo participante da natureza humana.”[4]

Um outro erudito, D. M. McIntyre (1859-1938) de Glasgow, fala similarmente:

“Há um sentido geral em que o Senhor Jesus se coloca como representante da raça humana. Ele é divino, o próprio Deus do próprio Deus; por essa razão nele todos os homens vivem e movem e existem. Como o Filho do Homem Ele compreende a humanidade universal. Filho do Homem foi o título que nosso Senhor escolheu para Si mesmo.... é uma confissão pública de Sua relação com a raça.”[5]

É freqüentemente dito que Cristo tomou este título de Dn 7.13, mas não há nenhuma menção lá de “o Filho do Homem,” somente de “um como filho de homem,” isto é, de alguém que tem uma aparência humana (em contraste com as quatro bestas já descritas). Mas Cristo não apenas aparenta alguém que é humano; Ele é humano. É também freqüentemente afirmado que o título denotava “o Messias,” mas por que, então, Jesus tantas vezes aplicava-o a Si mesmo em Seu ministério, ao mesmo tempo que Ele ordenava a Seus apóstolos que não dissessem ao público que Ele era o Messias? Não, o título foi inventado por Cristo mesmo para denotar Sua humanidade, e é oposto àquele outro título, “O Filho de Deus,” que denota Sua deidade.

“A idéia da verdadeira humanidade de Cristo se encontra em sua base,” diz Westcott, e significa que “Ele foi o representante da raça toda; o Filho do Homem em quem todos os poderes potenciais da humanidade foram reunidos... Tudo que verdadeiramente pertence à humanidade, tudo, por essa razão, que pertence a todo indivíduo na raça toda, pertence também a Ele.”[6]

Ele, por essa razão, representa todo e qualquer homem. Agora, observe que Cristo declarou que foi como o Filho do Homem que Ele devia sofrer (Mt 17.12; 26.2; Mc 8.31; 9.31; 14.21; Lc 18.31-33; 22.22); dar Sua vida como resgate (Mt 20.38); e ser levantado na cruz (Jo 3.14; 8.28; 12.34).


Is 45.22


Is 45.22 diz a mesma coisa em outras palavras: “Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os confins da terra; porque eu sou Deus, e não há outro.” Os professores Murray e Stonehouse em The Free Offer of the Gospel reconhecem que a salvação aqui oferecida não significa segurança temporária ou temporal, mas espiritual e eterna. Eles também confessam que a expressão, “todos os confins da terra,” denota um verdadeiro universalismo, que abrange a todos. Eles constatam isto confirmado pelo contexto, no qual Deus fala como o Criador (vv. 12, 18) e como Salvador (vv. 15, 20, 21) e Juiz (v. 23). Eles concluem dizendo que “não há nenhuma exceção ao comando para olhar e ser salvo, mais do que há para a única dignidade de Criador, a única dignidade de Deus, e a única dignidade de Salvador do Deus que estende o apelo.”[7] É suficiente fazer apenas uma pergunta aqui: Como pode “todos os homens sem exceção” ser chamados à salvação se foi somente “para todos os homens sem distinção” (isto é, todos as classes de homens) que a salvação foi comprada para eles no Calvário?


Is 53.4


A primeira parte deste verso é citado em Mt 8.17: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças.” O evangelista nos conta que estas palavras foram cumpridas quando Cristo “expulsou os espíritos, e curou todos os enfermos” (v. 16).

Mateus repetidamente relata a cura que Cristo realizava de todos que vinham, ou eram trazidos a Ele, em busca de ajuda (cf. 4.23f; 9.35; 12.15; 15.30; 21.14). Não há a menor base para crer que todas estas pessoas faziam parte dos eleitos. Então o pronome “nosso” não deve ser restrito a esses, mas deve ser tomado em um sentido geral, simplesmente para denotar seres humanos. Neste caso, Cristo ser ferido, esmagado e punido, mencionados no próximo verso (Is 53.5) foram para todos os homens também, o “nosso” três vezes usado lá sendo tão abrangente quanto o “nosso” duas vezes usado no verso 4.


Is 53.6


Considere, em seguida, as três afirmações de Is 53.6: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair (fez descer) sobre ele a iniqüidade (a punição) de nós todos.” Se prestarmos atenção no contexto, teremos que confessar que as palavras dizem respeito ao povo de Israel. Mas elas não devem, no final das contas, ser restringidas a esse grupo; ao invés, o povo de Israel deve ser tomado, como em Rm 3.19, como representante de toda a humanidade. Na primeira destas afirmações, a apostasia geral dos homens é declarada; na segunda, o desvio de cada um; na terceira, o sofrimento expiador do Messias, que é dito ser em benefício de todos. Como o primeiro “todos” é verdadeiro de todos os homens (e não apenas dos eleitos), julgamos que o último “todos” diz respeito ao mesmo grupo. Todos os homens são convidados a entrar no primeiro “todos” (contanto que eles confessem sua culpa em ter desviado), e sair no último “todos” (receber seu perdão pelo sacrifício expiador).

É verdadeiro que nós, “desgarrados como ovelhas,” somos curados com os açoites de Cristo – pois “o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele” (v.5) – mas não até que “temos voltado ao Pastor e Bispo das nossas almas” (1Pe 2.24-25). Seus açoites proporcionaram o remédio para a nossa cura, mas nossa cura é dependente de aplicarmos o remédio pela fé penitente.


O NOVO TESTAMENTO


Sem mais consideração do Velho Testamento, vamos para o Novo. E aqui será apropriado observar alguns fatos gerais antes de lidar com alguns textos específicos. Nada se sobressai mais visivelmente no relato do Evangelho da vida de Cristo do que Sua afeição por todos. Se havia qualquer barreira, não foi Ele que criou. Ele foi acusado de ser “amigo dos publicanos e pecadores” (Mt 11.19; Lc 7.34). Isto não significa que Ele era amigo meramente dos pecadores penitentes. Claremente, Sua afeição se estendia tanto aos pecadores eleitos quanto aos não eleitos, como qualquer um pode ver por si mesmo lendo os relatos. Mas se espera que pensemos que quando Ele veio para morrer, Ele morreu apenas pelos pecadores eleitos.

Nascendo do coração amável de Cristo estava aquela compaixão da qual tão freqüentemente lemos. Esta compaixão não estava confinada às necessidades materiais do povo, tal como saúde e comida; tinha a ver com suas necessidades espirituais também, tais como ensinamento e perdão. É evidente que a simpatia de Cristo se estendia a todos, embora desprezada por muitos. Devemos crer que quando Ele chegou à cruz, Ele repentinamente limitou Sua simpatia aos eleitos? Veja o comentário de Calvino na pg. 76.


A SANTA CEIA


Considero apenas dois pontos dos evangelhos sinóticos: primeiro, o relato da Última Ceia. Em Mt 26.28 Cristo diz: 

“Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados.” 

Embora Cristo disse que poucos encontram a vida eterna (Mt 7.14), e que poucos são escolhidos (Mt 22.14), Ele não diz que Seu sangue foi derramado por poucos, mas por muitos. Calvino declara: 

“Pela palavra muitos Ele não quer dizer uma parte do mundo apenas, mas toda a raça humana.”[8] É certo que este é o significado em Rm 5.15: “Pela ofensa de um morreram muitos.” No v. 18a o primeiro muitos do v.15 são definidos como todos os homens: “Por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação.” 

Hodge diz: 

“Muitos, ou mais apropriadamente os muitos, evidentemente significa a multidão, a massa, toda a raça.”[9] 

Agora se o sangue de Cristo foi derramado por “toda a raça humana,” como diz Calvino, então a Expiação Limitada é excluída. Ele logo acrescenta quando ele faz referência a Lc 22.19, 

“Quando nos aproximamos da Santa Ceia, não vamos apenas lembrar em geral que o mundo foi redimido pelo sangue de Cristo, mas que todos considerem por si mesmos que seus próprios pecados foram expiados.”


A GRANDE COMISSÃO


O segundo ponto que eu considero dos sinóticos – adicionado no quarto Evangelho – é o relato da Grande Comissão (Mt 28.19; Mc 16.15; Lc 24.47; cf. Jo 20.23). Neste vemos os discípulos de Cristo ordenados a contar a todos sobre Ele, o Salvador dos pecadores. Visto que Ele não impõe nenhuma restrição na pregação deles, não deve haver nenhuma limitação em Seu sacrifício expiador. Ele deve ter morrido por todos os homens.


Jo 1.29


Chegamos ao quarto Evangelho. Consideremos o cap 1.29: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” Grimm-Thayer diz que a palavra traduzida como “tirar” (usada novamente em 1Jo 3.5), significa “remover;” Arndt-Gingrich, que ela denota “remover” ou “apagar.” Robinson declarou que a afirmação se refere à remoção da “imputação ou punição do pecado,” que é confirmado por Jeremias, que diz que ela denota “pôr de lado a culpa de outros.”[10]

Obviamente, isto não significa que Cristo dessa forma removeu o pecado, quando Ele morreu como o Cordeiro sacrificado, que aqueles por quem Ele sofreu, não tinham, conseqüentemente, nenhum pecado a ser perdoado. Somente significa que Ele, por Sua morte, sofreu a punição devida a eles por causa de sua culpa. A fim deles efetuarem o benefício dela, eles precisam reconhecer e abandonar seus pecados, e confiar em Cristo crucificado como seu Redentor. Isto expõe a falácia disfarçada na frase “A Cruz Salva.”

Homens como Owen e Pink restringem o termo “mundo” neste texto de modo que ele abrange somente os eleitos. Eles falam do “mundo dos eleitos,” que é uma expressão esquisita, visto que nunca lemos de Deus elegendo “o mundo,” mas somente de Sua escolha de algumas pessoas dele. É completamente verdadeiro que o termo, quando usado dos homens, nem sempre significa todos; mas é inegável que ele usualmente significa isso ou “a humanidade contemplada como em uma condição não regenerada.”[11] De fato, parece que Cristo regularmente usou-o nestes sentidos (p. ex., Mt 5.14; 13.38; 18.7; Mc 14.9; Jo 7.7; 8.12, 26; 9.5; 12.31, 47; 13.1; 14.17, 27, 30; 15.18-19; 16.8, 11, 20, 28, 33; 17.6, 9, 14, 16, 25).

Será observado que a maioria das referências precedentes pertencem ao quarto Evangelho. Westcott diz:

“A idéia fundamental de kosmos em São João é a da soma do ser criado que é parte da esfera da vida humana como um todo ordenado, considerado à parte de Deus.... É fácil ver como o pensamento de um todo ordenado, relativo ao homem e considerado à parte de Deus passa para aquele do todo ordenado separado de Deus. O homem caído imprime seu caráter sobre a ordem que é a esfera de sua atividade. E dessa forma o mundo vem a representar a humanidade em seu estado caído, alienado de seu Criador, e até então determinando o caráter da ordem toda da que o homem faz parte. O mundo ao invés de permanecer a verdadeira expressão da vontade de Deus sob as condições de sua criação, torna Seu rival.... Desta análise do uso de São João do termo será visto quão naturalmente a concepção de uma ordem à parte de Deus passa para a de uma ordem oposta a Deus: como um sistema que é limitado e passageiro torna-se hostil ao divino.”[12]

O comentário de Calvino sobre Jo 1.29 é:

“Ele usa a palavra pecado no singular para qualquer espécie de iniqüidade; como se ele tivesse dito que toda espécie de injustiça que aliena os homens de Deus é retirada por Cristo. E quando ele diz o pecado do mundo, ele estende este favor indiscriminadamente a toda a raça humana” - não meramente aos eleitos.[13]

Em suas observações sobre este texto, Ryle diz,

“Cristo é... um Salvador para toda a humanidade.... Ele não sofreu por algumas pessoas apenas, mas por toda a humanidade.... O que Cristo retirou, e suportou na cruz não foi o pecado de certas pessoas apenas, mas toda a massa acumulada de todos os pecados de todos os filhos de Adão.... Eu defendo tão vigorosamente quanto qualquer um, que a morte de Cristo é proveitosa a ninguém senão os eleitos que crêem em Seu nome. Mas eu não ouso limitar e restringir expressões como esta diante de nós. Eu não ouso dizer que nenhuma expiação foi feita, em qualquer sentido, exceto para os eleitos. Eu creio que é possível ser mais sistemático do que a Bíblia em nossas afirmações.... Não ouso confinar a intenção da redenção aos santos apenas. Cristo é para todo homem.... Eu repudio a idéia de salvação universal como uma heresia perigosa e totalmente contrária à Escritura. Mas os perdidos não provarão ser perdidos porque Cristo não fez nada por eles. Ele carregou seus pecados, Ele levou suas transgressões, Ele proporcionou pagamento; mas eles não afirmariam qualquer interesse nisto... A expiação foi feita por todo o mundo, embora seja aplicada e desfrutada por ninguém senão os crentes.”[14]


Jo 3.16



O próximo, Jo 3.16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” O significado óbvio é que “o mundo” denota a raça, e que “todo aquele” significa qualquer um, e que, embora Deus tenha mostrado Seu amor a todos na dádiva de Seu Filho, somente aqueles que colocam sua confiança nele serão salvos. Entretanto, homens instruídos, e alguns nem tanto, têm feito o melhor que podem para refutar esta construção do verso: novamente, “o mundo” deve ser reduzido ao grupo dos eleitos, e “todo aquele” não deve ser vasto o suficiente para incluir justamente qualquer um. Mas aqui, como no cap. 1.29, os léxicos gregos dizem que “o mundo” denota a humanidade. Além disso, é inútil negar que “todo aquele” abrange todo mundo, como uma referência às suas outras ocorrências demonstram (p. ex., Mt 7.24; Jo 12.46; At 2.21; 10.43; Rm 9.33; 10.11, 13; Ap 22.17). É equivalente àquelas outras palavras que Jesus empregou: “se qualquer um” (p. ex., Jo 6.51; 7.17, 37; 10.9; 12.26, 47). Sobre este último verso (cap. 12.47) Calvino diz: “A fim de que as mentes de todos os homens possam ser inclinadas ao arrependimento, a salvação é aqui oferecida a todos os homens sem distinção.” (A palavra final deve ser “exceção” ou a afirmação é uma non sequitur.)

O décimo sexto verso do terceiro capítulo de João não deve ser separado dos dois versos precedentes, nos quais Cristo aludiu ao 21º capítulo de Números. Lá, Moisés levantou a serpente de bronze no acampamento de Israel, que se “qualquer um” olhasse para ela, experimentava libertação física. Aqui, no verso 15, Cristo aplica a história espiritualmente quando diz que “todo aquele” que crê no Filho do Homem levantado experimentará libertação espiritual. O mesmo “todo aquele” ocorre no verso 16, e carrega com ele a mesma idéia de universalidade tipificada em Nm 21. Calvino diz:

“Ele empregou o termo universal todo aquele, tanto para convidar todos indiscriminadamente a participar da vida, como para pôr fim a toda desculpa dos incrédulos. Este também é o significado do termo mundo que Ele anteriormente usou [Deus amou o mundo de tal maneira]; pois embora nada será encontrado no mundo que seja digno do favor de Deus, todavia Ele se mostra para ser reconciliado com o mundo todo, quando Ele convida todos os homens sem exceção [não meramente sem distinção] à fé de Cristo, que nada mais é do que uma entrada para a vida.”[15]

A referência aqui é, obviamente, não ao amor de complacência de Deus, mas ao Seu amor de compaixão. Foi deste amor de piedade que Ele deu Seu Filho unigênito – em Belém, sim, mas principalmente no Calvário, pois é somente crendo nele “levantado” (como crucificado, vv. 14, 15; cf. cap. 12.32-33) que alguém pode receber a vida eterna.

Novamente, as observações de Calvino são apropriadas:

“O Pai celestial ama a raça humana e deseja que eles não pereçam.” Ele pergunta, “Como acreditaremos que somos amados por Ele, até que a expiação tenha sido feita por aqueles pecados por causa dos quais Ele está justamente desgostoso conosco?”

Assim temos que primeiro entender que a expiação foi feita por nossos pecados antes que possamos concluir que somos amados por Deus. Mas se a expiação foi feita somente pelos pecados de alguns, quem deve saber se seus pecados foram incluídos na transação? A posição de Calvino não implicava em nenhuma dificuldade, pois ele fala aqui da “reconciliação que foi obtida através de Cristo,” como consistindo da reconciliação “com o mundo todo” - não meramente os eleitos. Todavia, como ele acrescenta, é somente os eleitos que buscam a Deus pela fé. É claro, por essa razão, que Calvino assumia que “o mundo” aqui significa a raça, não os eleitos.[16]

Ryle diz sobre este texto:

“Parece-me uma violência à linguagem confinar a palavra mundo aos eleitos. O mundo é indubitavelmente um nome às vezes dado aos perversos exclusivamente. Mas eu não consigo ver que seja um nome alguma vez dado aos santos.... Se o mundo significasse somente a porção crente da humanidade, teria sido suficiente dizer, Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que o mundo não pereça.... A verdadeira concepção das palavras.... creio ser esta: O mundo significa toda a raça humana.... O amor falado é aquele amor de piedade e compaixão com que Deus considera.... especialmente.... a humanidade. Há muito cheguei à conclusão de que homens podem ser mais sistemáticos em suas afirmações do que a Bíblia, e podem ser levados a graves erros pela veneração idólatra de um sistema.”[17]

David Brown também diz que neste verso “o mundo” significa o mundo “em seu sentido mais vasto.”[18]

No sermão de Spurgeon sobre “O Amor Imensurável,” ele diz, logo no começo da seção III: “Há no texto (Jo 3.16) uma palavra que não tem limite – Deus amou o mundo de tal maneira; mas então chega no limite descritivo.... para que todo aquele que nele crê;” mas, estranho de fato, mais adiante, no mesmo parágrafo, ele diz que a restrição se refere ao amor de Deus, ao invés da fé dos homens! Estas são suas palavras: “Aqui está o alcance do amor: enquanto todo incrédulo é excluído, todo crente é incluído.”[19]


Jo 3.17


Considere o próximo verso (Jo 3.17), já comentado em meu segundo capítulo: “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” Aqui Calvino diz:

“A palavra mundo é novamente repetida, para que nenhum homem possa pensar-se totalmente excluído, se ele somente manter a estrada da fé”

- mostrando que ele incluiu todos os homens na palavra “mundo,” ao invés de restringi-la para abranger os eleitos apenas. Sobre Jo 12.47b (“Eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo”), Calvino similarmente observa:

“Ele demora para pronunciar julgamento sobre eles, porque, ao contrário, Ele veio para a salvação de todos.... Ele põe de lado por um tempo o ofício de juiz e oferece salvação a todos sem reserva, e estende Seus braços para abraçar todos, para que todos possam ser os mais encorajados a se arrepender.”[20]

Seja o envio do Filho ao mundo pelo Pai (como aqui, e no cap. 10.36; 17.18; 1Jo 4.9), ou a vinda do Filho ao mundo (como no cap. 3.19; 6.14; 9.39; 11.27; 12.46; 16.28; 18.37; cf. 1Tm 1.15), a referência é ao mundo da humanidade, e não ao “mundo dos eleitos.”


Jo 3.18


Considere o verso 18: “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.” Crer no “nome” de Cristo é uma expressão encontrada em outro lugar (Jo 1.12; 20.31; At 10.43; 1Jo 3.23a; 5.13) e significa confiança nele como Redentor, como observado no capítulo V.2. O verso 18 afirma que pecadores que não crêem “no nome do unigênito Filho de Deus” são julgados por isto. Mas como algum pecador poderia ser julgado por não confiar em Cristo como Redentor, se Cristo não proporcionou redenção para ele? A teoria da Expiação Limitada não é capaz de fornecer a resposta.


Jo 4.42


Em Jo 4.42 os samaritanos disseram à mulher com quem Jesus tinha conversado no poço de Sicar: “Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo.” João depois declarou que “o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo” (1Jo 4.14). Devemos dizer que o termo “mundo” nestes textos significa “o mundo dos eleitos,” porque é somente essa parte do mundo que é verdadeiramente salva; ou, que o termo significa o mundo todo dos homens por quem o Pai enviou Seu Filho, para fornecer salvação a todos, se eles se beneficiarem de Sua graça salvadora ou não? É certo que quando os samaritanos chamaram Jesus “o Salvador do mundo,” eles não queriam dizer “o mundo dos eleitos.” Não é óbvio que, quando João mais tarde empregou o mesmo título, ele não impõs um significado especial nele?

É também certo que quando Cristo, usando uma expressão similar, disse, “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8.12; 9.5), Ele não queria dizer “o mundo dos eleitos,” como qualquer um pode vir a saber comparando os cap. 1.1-9; 3.19 e 12.46. O sol nos céus brilha sobre todos os homens, ainda que alguns, em sua insensatez, possam escolher recolher-se em cavernas escuras para fugir de seus raios iluminadores. Como a Luz do mundo, o Filho de Deus visava o bem salvífico de todos os homens, como o batista em seu ministério também visava (cap. 1.7). Em ambos os casos, a maior parte dos ouvintes se exclui do bem que lhe foi oferecido. É certo que quando Cristo chamou Seus discípulos “a luz do mundo” (Mt 5.14), Ele não queria dizer “a luz dos eleitos.” Concluímos, então, que “o Salvador do mundo” não significa “o Salvador dos eleitos.”


Jo 5.40


Novamente, eu cito Jo 5.40: “E não quereis (não desejais) vir a mim para terdes vida.” Ryle comenta:

“Estas palavras são uma sentença dourada, que devem ser gravadas em nossas memórias, e guardadas em nossas mentes. É falta de vontade para vir para Cristo para salvação que será descoberto, finalmente, ter excluído muitos do céu. Não é os pecados dos homens: todo tipo de pecado pode ser perdoado. Não é o decreto de Deus: a Bíblia não nos diz de qualquer um que Deus somente criou para ser destruído. Não há qualquer limite na obra de redenção de Cristo: Ele pagou um preço suficiente para toda a humanidade. E algo mais do que isto: é a própria má vontade inata do homem para vir para Cristo, se arrepender, e crer.”[21]

Shedd diz:

“O não eleito recebe a graça comum, e a graça comum inclinaria a vontade humana se ela não fosse derrotada pela vontade humana. Se o pecador não fizesse nenhuma oposição hostil, a graça comum seria equivalente à graça salvadora.”[22]

Claramente, tivessem vindo para Ele eles teriam recebido a vida eterna dele. Mas Ele não poderia tê-la entregue sem expiar seus pecados (cap. 3.14-15). Segue necessariamente que Sua morte deve ter incluído provisão para eles. A única razão que eles não obtiveram a vida foi, de acordo com Ele, porque eles recusaram aceitar de Sua graça. Similarmente, lemos em Lc 7.30 que “os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos.”


Jo 6.32-51


Em Jo 6.32-33, Cristo disse aos Seus inimigos: “Meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo.” Aqui a efetiva concessão da vida não deve ser entendida, mais do que deve ser entendida no v. 51: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo.” Ambas as afirmações seguiram a alimentação dos 5.000 onde, certamente, a eleitos e não eleitos foram ofertados o pão material. E essa ocasião foi claramente simbólica. Thayer lista a palavra “mundo” em ambos os versos como significando toda a raça dos homens.[23]

Ryle comenta sobre o v. 32 que o “dar” significa “oferecer algo para aceitação que aqueles a quem é oferecido podem não receber,” e então acrescenta:

“É uma declaração notável, e uma que parece para mim provar incontestavelmente que Cristo é o dom de Deus ao mundo todo – que Sua redenção foi feita para toda a humanidade – que Ele morreu por todos – e é oferecido a todos.... Corretamente interpretadas, as palavras significam que em algum sentido ou outro o Pai verdadeiramente dá o Filho àqueles que não são crentes. Eles autorizam os pregadores e os mestres a fazerem uma oferta vasta, ampla, completa, livre, ilimitada, de Cristo a toda a humanidade sem exceção.”[24]

Sobre o v. 33, ele diz:

“O pão de Deus foi para todo o mundo, e forneceu vida eterna a todo membro da família de Adão que o comeria, judeu ou gentio.... Que todo o mundo não tem vida de Cristo, e não crê nele, é indubitavelmente verdadeiro. Mas essa vida é proporcionada em Cristo, e a salvação suficiente para todo o mundo parece ser a interpretação natural do texto.”[25]

Sobre o v. 51, ele comenta:

“Eu somente posso ver um significado na palavra mundo. Significa toda a humanidade.... Cristo morreu por toda a humanidade; não pelos eleitos apenas, mas por toda a humanidade.... Que a morte de Cristo foi suficiente para toda a humanidade, e que quando Ele morreu Ele fez expiação suficiente para todo o mundo, são verdades que, tanto neste texto como em outros como estes, parecem à minha mente indisputáveis.”[26]

Entre as duas partes que acabamos de citar de Jo 6, está o famoso verso 44: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer,” sobre o qual um comentário é feito no capítulo precedente (V.6). A dificuldade se encontra na vil disposição do pecador, e ele é completamente responsável por isso. Ele não é nenhum “pobre cativo,” como Owen o chama, mas um deliberado rebelde. Seu caso, por isso, não é para compaixão, mas para censura.


Jo 16.8-11


Em Jo 16.7 Cristo declarou: “Se eu não for, o Consolador não virá a vós.” No próximo verso, Ele acrescentou: “E, quando ele vier, convencerá o mundo.” Dessa forma Ele distinguiu Seu povo crente no mundo, e disse que seria pela vinda do Espírito ao primeiro que o último seria convencido. Embora o mundo foi incapaz de convencer Cristo (cap. 8.46), Seu Espírito convenceria o mundo.

Uma das coisas das quais o Espírito convenceria o mundo depois que viesse para os crentes, é o pecado de não crer em Cristo (v. 9), isto é, de não confiar nele como Redentor. Devemos pensar que “o mundo” que é convencido deste pecado é somente “o mundo dos eleitos”? Então devemos também pensar que “o príncipe deste mundo,” mencionado no v. 11, seja o príncipe dos eleitos.” Mas isto é julgar equivocadamente (cap. 12.31; 14.30). O próprio Calvino diz aqui:

“Sob o termo mundo estão, penso, incluídos não apenas aqueles que verdadeiramente seriam convertidos a Cristo, mas os hipócritas e os reprovados.” 

Igualmente – comentando sobre o cap. 17.21, ele diz que a palavra mundo significa os reprovados.[27]


Jo 17.9


Em seus comentários sobre este verso na magnífica oração sacerdotal (“Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus”), o bispo Ryle diz:

“Não há como fugir do texto que diz dos perversos que eles ‘negarão o Senhor que os resgatou’ (2Pe 2.1). A interpretação mais justa e honesta do texto, ‘Deus amou o mundo de tal maneira’ (Jo 3.16), é considerar ‘o mundo’ como significando toda a humanidade....

“Não cederei espaço para ninguém em manter que Jesus ama toda a humanidade, veio ao mundo por todos, morreu por todos, proporcionou redenção suficiente para todos, faz um apelo a todos, convida todos, comanda todos a se arrepender e crer; e deve ser oferecido a todos – livremente, completamente, irrestritamente, diretamente, incondicionalmente, - sem dinheiro e sem preço. Se eu não defendesse isto, eu não ousaria entrar em um púlpito, e não saberia como pregar o Evangelho.”[28]

As palavras, “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo,” não podem ser razoavelmente tomadas para significar que, nesta oração sacerdotal, Cristo não rogou, alguma vez, pelo mundo. Esta opinião está em desacordo com Seu último pedido por aqueles que deviam crer nele pela palavra dos apóstolos (v. 20). Antes de sua fé, estes futuros convertidos eram ainda uma parte do mundo. Além disso, no verso 21 Ele orou “para que o mundo creia que tu me enviaste;” e o verso 23, “para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim.” Veja o Capítulo III.4.


At 13


Apresento apenas uma passagem no livro de Atos (cap. 13). No v.23 Paulo diz que Deus trouxe “Jesus para Salvador de Israel” - que certamente não significa que Jesus era o Salvador real da nação, mas apenas o Salvador oferecido. “A palavra desta salvação,” lemos no v. 26, foi enviada para judeus e prosélitos: “filhos da geração de Abraão, e os que dentre vós temem a Deus.” que fundamento temos para pensar que todas estas pessoas receberam a salvação? Absolutamente nenhum. Todavia, claramente, ela foi colocada dentro de seu alcance. O verso 38 é da mesma significação: “Seja-vos, pois, notório, homens irmãos [irmãos judeus], que por este se vos anuncia a remissão dos pecados,” que não poderia ter sido feito à parte de sua compra pelo sangue (Hb 9.22). No final, Paulo chama alguns de seus ouvintes de “desprezadores” da salvação de Deus, e declara: “Visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios” (v. 46). Todavia quão claro é que a remissão dos pecados e a vida eterna, obtidas pelas agonias do Calvário, foram oferecidas a estes, que se mostraram ser miseráveis ingratos.


Notas:

[1] Owen, Works (ed. Goold, Edinburgh, 1850), Vol. X, p. 290.

[2] Pink, Gleanings in Genesis (Chicago, 1922), p. 43.

[3] Moule, Outlines of Christian Doctrines (Londres, 1889), p. 74. cf. The Expositor (3a. série), Vol. II, p. 450.

[4] Davenant, The Death of Christ (Vol. II de On the Colossians, ed. Allport, Londres, 1832), p. 374.

[5] McIntyre, Christ the Crucified (Londres, 1935), p. 102. Veja também pp. 46, 82, 118.

[6] Westcott, The Gospel according to St. John (Londres, 1882), nota adicional sobre “The Son of Man,” p. 35.

[7] Murray e Stonehouse, The Free Offer of the Gospel (Phillipsburg, NJ, 1948), p. 20.

[8] Calvin Commentaries (reimpresso Grand Rapids, 1949), Harmony of Matthew, Mark and Luke, Vol. III, p. 214.

[9] Hodge, A Commentary on the Epistle to the Romans (Nova York, 1836), p. 124.

[10] O grego é airo. Veja a Revisão de Thayer do Greek Lexicon of the N.T. de Grimm (1893); a edição de Arndt & Gingrich do Greek-English Lexicon of the N.T. de Bauer (Boston, 1836); Kittel, Theological Dictionary of the N.T. (Grand Rapids, 1964), art. sobre airo por Joachim Jeremias, p. 186.

[11] Goode, The Better Covenant (Londres, 1848), p. 327 ou 337.

[12] Westcott, op. cit., pp. 31f.

[13] Calvino, Commentary on John's Gospel (Grand Rapids, 1949), Vol. I, p. 64.

[14] Ryle, Expository Thoughts on the Gospels (Grand Rapids, 1900), Vol. III, pp. 61f.

[15] Calvino, Commentary on John's Gospel, Vol. I, p. 125. Cf. Leon Morris: “Todo aquele é vasto o suficiente para incluir qualquer um,” em The Cross in the New Testament (Grand Rapids, 1965), p. 160.

[16] Calvino, op. cit., Vol. I, pp. 123f.

[17] Ryle, op. cit., pp. 158f.; também 59f.; veja Vol. IV, pp. 431f.

[18] Jamieson, Fausset & Brown, Critical, Experimental and Practical Commentary (Lippincott ed., 1864-70), Vol. V, p. 364.

[19] Spurgeon, The Treasury of the Bible, Parte 2 do Vol. 3 sobre o N.T., pp. 282-287; ou The Metropolitan Tabernacle Pulpit para 1885, p. 392.

[20] Calvino, op. cit., Vol. I, p. 126 e Vol. II, p. 50.

[21] Ryle, op. cit., p. 320.

[22] Shedd, Dogmatic Theology (Nova York, 1888), Vol. II, p. 483.

[23] Thayer, op. cit.

[24] Ryle, op. cit., p. 367.

[25] ibid., p. 368.

[26] ibid., p. 395.

[27] Calvino, op. cit., Vol. II, pp. 138 & 184.

[28] Ryle, op. cit., Vol. IV, pp. 431f.

Fonte: http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=category&id=117&Itemid=42

Tradução: Paulo César

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