quinta-feira, 15 de julho de 2010

Martinho Lutero (1483–1546): Sermão sobre João 1:29

Eis o Cordeiro de Deus - Parte 1 de 2



Este é um excelente e magnífico testemunho de João sobre a introdução do novo governo e reino de Cristo. É uma declaração poderosa. As palavras são claras e lúcidas; nos dizem o que se deve pensar de Cristo. As palavras anteriores de João (Jo 1:17), "A Lei foi dada por Moisés," dificilmente podem ser chamadas de louvor de Moisés. Mas, nesta passagem João praticamente o repreende, como se estivesse dizendo:

“Vocês judeus sacrificam um cordeiro a cada Páscoa, como Moisés ordenou a vocês. Além disso, vocês matam dois cordeiros diariamente, que são sacrificados e queimados a cada manhã e à noite. É um cordeiro, esteja certo. Mas vocês judeus fazem tal demonstração dele, vocês elogiam esses sacrifícios e se gabam deles de tal forma, que vocês colocam em eclipse a glória de Deus, empurrando Deus para segundo plano, e privando o de sua honra. Comparem o verdadeiro Cordeiro com o cordeiro que a Lei de Moisés ordena que vocês matem e comam.”

Este é um cordeiro obtido de pastores. Aquele, porém, é um Cordeiro totalmente diferente; é o Cordeiro de Deus. Para o qual foi ordenado suportar nas costas os pecados do mundo. Comparado com Ele, todos os cordeiros mortos no templo, assados, e comidos não contam para nada. 


“O cordeiro pascal da lei foi, na verdade, uma brincadeira de criança esplêndida, bem como uma cerimônia instituída para lembrar vocês do verdadeiro Cordeiro de Deus. Mas vocês exageraram sua importância e assumem que tais mortes e sacrifícios foram feitos para remover seus pecados. Não cedam a essa ilusão! Seus cordeiros nunca vão conseguir isso. Somente o Filho de Deus conseguirá. Esses cordeiros da lei eram meramente para ser brinquedos do povo, para lembrá-los do verdadeiro Cordeiro Pascal, que era para ser sacrificado em algum momento futuro.” 

Mas eles não tinham nada além de desprezo por tudo isso e suponham que um cordeiro imolado na Páscoa bastava. Portanto João, por assim dizer, justapõe o cordeiro de Moisés e Cristo, o verdadeiro Cordeiro. A Lei não foi estendida para além de Cristo. 

João queria dizer: "Seus cordeiros foram tomados dos homens, como Moisés tinha ordenado na lei de Deus (Êxodo 12:3-5). Mas este é o Cordeiro de Deus. O cordeiro da Páscoa é um Cordeiro de Deus, não um cordeiro selecionados dos capões. O cordeiro da lei era um cordeiro ou uma ovelha de um homem.” João quer dizer: “Este é o verdadeiro Cordeiro que tira o pecado do povo. Com seus outros cordeiros, sacrificados no festival da Páscoa, vocês tentam remover seus pecados, mas vocês nunca conseguiram. Neste Cordeiro, nascido de uma virgem, você conseguirão. Não é um cordeiro natural ou um capão como previsto na lei, mas ainda assim é um cordeiro.” Porque Deus prescrevia que era para ser um cordeiro que deveria ser sacrificado na cruz por nossos pecados. Em outros aspectos ele era um homem como todos os outros seres humanos; mas Deus fez Dele um Cordeiro que deveria levar os pecados de todo o mundo.

Este é um sermão extraordinariamente reconfortante e livre sobre Cristo, nosso Salvador. Nem os nossos pensamentos, nem as nossas palavras podem fazer justiça completa ao assunto, mas na vida além vai resultar em nossa eterna alegria e eterna felicidade que o Filho de Deus humilhou a si mesmo e levou sobre si os meus pecados. Sim, Ele assume não apenas os meus pecados, mas também os de todo o mundo, de Adão até o último mortal. Esses pecados Ele toma para si; por eles está disposto a sofrer e morrer para que os nossos pecados possam ser expurgados e possamos alcançar a vida eterna e a bem-aventurança. Mas quem pode dar o adequado pensamento ou expressão sobre este tema? O mundo inteiro com toda a sua santidade, retidão, poder e glória está sob o domínio do pecado e completamente desacreditado diante de Deus.  

Quem deseja ser salvo, deve saber que todos os seus pecados foram colocados nas costas deste Cordeiro! Por isso João aponta esse Cordeiro aos seus discípulos, dizendo: “Você quer saber onde os pecados do mundo são colocados para o perdão? Então não recorra à Lei de Moisés nem ao diabo; lá, com certeza, você encontrará pecados, mas pecados que te deixaram terrificado e amaldiçoado. Mas se você realmente quiser encontrar um lugar onde os pecados do mundo são exterminados e apagados, então lance seu olhar sobre a cruz. O Senhor colocou todos os nossos pecados nas costas do Cordeiro. Como o profeta Isaías declara (53:6): “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho” um aqui, outro acolá. Um buscava Deus dessa forma, o outro de uma maneira diferente; havia incontáveis maneiras de se olhar para Deus.”

E como acontece quando se perde o caminho certo, e, por exemplo, gira na direção errada em uma encruzilhada, uma falsa decisão leva a uma centena de outras. Assim um escolhe a regra de São Francisco para ajudar, o outro a ordem de São Benedito. E o papa e os turcos, cada um segundo seu próprio julgamento, fabricam seus próprios meios de penitência pelo pecado. Mas está escrito: “Eles tem se desviado” Mas agora, qual é o caminho certo, de maneira a proteger de desvios? Quanto mais longe se desvia do caminho certo, mais a confusão cresce. Isaías diz que o caminho certo é este: “Deus colocou todos os nossos pecados sobre Ele e o feriu pelos pecados do povo; quando todos se desviaram, Deus colocou todos os nossos pecados sobre as costas de seu Cordeiro, e em nenhum outro. Ele ordenou ao Cordeiro para tirasse os pecados do mundo inteiro.”

Portanto, um cristão deve se apegar apenas a este versículo e não deixar ninguém roubar isso dele. Pois não há outro conforto, quer no céu ou na terra, para fortalecer-nos contra todos os ataques e tentações, especialmente na agonia da morte. E quem acredita que este Cordeiro tomou os pecados de todo o mundo deve considerar o papa e os turcos como o Anticristo. Porque o papa ensina que o cristão deve se preocupar com tomar seu próprio pecado, expiar por ele com esmolas e assim por diante. Esta é a sua descarada mentira até os dias atuais. Mas se o que ele ensina é verdadeiro, então eu, e não Cristo, sou oprimido e sobrecarregado com o meu pecado. E então eu necessariamente estaria perdido e amaldiçoado. Mas Cristo tomou sobre si o pecado - não apenas o meu e o seu ou o de qualquer outro indivíduo, ou somente de um reino ou de um país, mas o pecado do mundo inteiro. E você, também, faz parte do mundo.

A memória de João tem sido estimado, esteja certo. Muitos murais do papado descrevem São João. Imagens dele e do Cordeiro foram esculpidos em madeira e pedra ou formados em ouro e prata. Uma vez por ano o seu dia era comemorado. Seus dedos foram pintados apontando para o Cordeiro. Mas tudo isso era externo e nunca tomou posse do coração. Ninguém entendia o verdadeiro significado da pintura e da figura. Os romanistas são ainda cegos, tolos e absurdos. Eles têm pinturas e esculturas de São João, e eles tem estimado a imagem e a estátua, mas a sua doutrina e sua vida contrariam a a tudo isso. Porque eles chamam a São Francisco ou São Benedito, Santa Catarina ou Bárbara, e outros santos para ajudar. Isso não é cegueira? Não fomos tolos e loucos? Não somente temos a doutrina informando-nos que este é o Cordeiro que carrega o pecado do mundo, mas também vimos a imagem de São João, apontando o dedo para Cristo e carregando Cristo sobre seu braço esquerdo. Celebramos grandes festivais comemorando tudo isso. E ainda assim a nossa visão era defeituosa, nós não compreendíamos o seu significado, nem sabíamos porque João estava nos mostrando o Cordeiro.

Esta é a base de toda a doutrina cristã. Quem acredita nisso, é um cristão e vai alcançar o que tem vindo buscar, e quem não acredita, não é cristão. A declaração é bastante clara: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." Além disso, este texto é a Palavra de Deus, não a nossa palavra. Também não é nossa invenção que o Cordeiro foi sacrificado por Deus e que, em obediência ao Pai, este Cordeiro tomou sobre Si o pecado do mundo inteiro. Mas o mundo se recusa a acreditar nisso e não quer conceder a honra a este querido Cordeiro, do qual depende a nossa salvação inteiramente por tomar sobre si nosso pecado. O mundo insiste em desempenhar um papel nesse processo. Mas o que mais aspira a fazer em expiação do pecado, o pior é o preço. Pois não há outro a não ser este Cordeiro; Deus não reconhece outro. Não seria razoável e correto tomar essas palavras dentro de nossos corações para que possamos tomar consciência dos nossos pecados?

Agora notem aqui que a Lei de Moisés, na verdade, informa você do seu pecado e diz como você deve obedecer a Deus e ao homem. Também me informa que eu sou hostil a Deus, que eu blasfemo contra Ele, e que eu não regulo adequadamente a minha vida de acordo com os preceitos dos Dez Mandamentos. Em resumo, a lei mostra-me quem eu sou; ela revela o pecado e me responsabiliza por ele. Esta é a sua própria função. Então eu fico com medo e tento me livrar dessa carga. Mas a lei diz: "Eu não posso ajudá-lo com isso." Então, corremos para os santos, e invocamos a ajuda da Virgem Maria, dizendo: "Intercedei por mim diante de seu Filho; demonstre a ele seus sentimentos!" Outro chama São Cristóvão, embora ele nunca tenha existido na terra. Outra apressa a si mesma para Santa Bárbara para a sua intercessão. Outros entram em ordens monásticas, desse modo aspiram a se tornar santos e seus próprios salvadores.

Na verdade, cada um de nós contempla seus pecados e promete consertar sua vida pecaminosa do dia-a-dia, dizendo: “Ó Cristo, concede-me um adiamento e suspende a hora da minha morte, e eu me tornarei piedoso e expiarei o meu pecado!” Mas isto não é uma cegueira hedionda e terrível? O pecado está em sua garganta, ele te dirige e pesa sobre você. A razão não conhece nenhum outro conselho ou ajuda. Logo a razão como vê que pecou, e declara: "Eu vou me reformar e me tornar piedoso!" Mas agora São João intervém e declara que o mundo inteiro está contaminado com o pecado. Ele nos mostra por meio da Lei que somos sobrecarregados com este pecado, e que não devemos deixá-lo descansar, onde a Lei o tem depositado, ou seja, na nossa alma. Pois se o pecado permanecer lá, você é amaldiçoado e condenado”. Ao mesmo tempo, você é muito fraco para removê-lo; você não pode vencer o pecado.

Em vista disso, São João, por seu testemunho ou sermão, mostra-nos um Outro sobre quem Deus Pai colocou os nossos pecados, a saber, o Cristo, o Senhor. A lei os colocou sobre mim, mas Deus os leva de mim e os coloca sobre este Cordeiro. Lá eles se encaixam muito bem, muito melhor do que em mim. Deus quer nos dizer: “eu vejo como o pecado oprime você. Você teria que colapsar sob o seu fardo pesado. Mas vou aliviar você e te livrar da carga - quando a Lei de condena você por seus pecados – e por misericórdia pura vou colocar o peso do seu pecado sobre este Cordeiro, que irá sustentá-los. "

Vocês podem sempre prezar e valorizar esse pensamento. Cristo se fez servo do pecado, sim, um portador do pecado, a pessoa mais humilde e mais desprezada. Ele destruiu todos os pecados por Si mesmo e disse: "Eu não vim para ser servido mas para servir" (Mt 20:28). Não há maior escravidão do que a do pecado, e não há serviço maior do que o exibido pelo Filho de Deus, que se torna o servo de todos, não importa quão pobre, miserável, ou desprezado eles possam ser, e toma os seus pecados. Seria espetacular e surpreendente, instigar todo o mundo para abrir os olhos e os ouvidos, a boca e o nariz na incompreensão maravilhada, se algum filho de rei viesse a aparecer na casa de um mendigo para cuidar dele em sua doença, lavar sua imundície, e fazer tudo mais que o mendigo tivesse que fazer. Isso não seria profunda humildade? Qualquer espectador ou qualquer beneficiário dessa honra se sentiria impelido a admitir que tinha visto ou experimentado algo incomum e extraordinária, algo magnífico. Mas o que é um rei ou um imperador comparado com o Filho de Deus? Além disso, o que é a imundície de um mendigo ou fedor comparado com a imundície do pecado que é nosso por natureza, que fede cem mil vezes pior e é visto de forma infinitamente mais repulsiva por Deus do que qualquer tipo de imundície encontrada em um hospital? E ainda o amor do Filho de Deus para nós é de tal magnitude que quanto maior a sujeira e o mau cheiro dos nossos pecados, mais Ele se torna amigo de nós, mais Ele nos purifica, livrando-nos de toda a nossa miséria e da carga de todos os nossos pecados e os coloca sobre sua própria costa. Toda a santidade dos monges fede em comparação com esse serviço de Cristo, que é o fato do Cordeiro amado, o grande homem, sim, o Filho do Altíssimo Majestade, descer do céu para me servir.

Tais obras beneficentes de Deus poderiam provocar-nos para amar e louvar a Deus e celebrar este serviço em música, sermão e ao falar. Deve também levar-nos a morrer voluntariamente e permanecer alegre em todos os sofrimentos. Porque como é incrível que o Filho de Deus se torne o meu servo, que ele se humilhe, que ele cubra a si mesmo com a minha miséria e pecado, sim, com o pecado e a morte de todo o mundo! Ele diz para mim: “Você não é mais um pecador, mas eu sou. Eu sou o seu substituto. Você não tem pecado, mas eu tenho. O mundo inteiro está em pecado. No entanto, você não está em pecado, mas eu estou. Todos os seus pecados estão colocados sobre mim e não sobre você.” Ninguém pode compreender isso. Na vida eterna os nossos olhos festejarão para sempre este amor de Deus. E quem não alegremente morreria por causa de Cristo? O Filho do Homem realizou o trabalho mais sujo e vil. Ele não colocou roupas rasgadas de algum mendigo ou calças velhas, nem Ele nos lavou como uma mãe lava uma criança; mas Ele tomou o nosso pecado, a morte e o inferno, a nossa miséria de corpo e alma. Sempre que o diabo declara: "Você é um pecador!" Interpõe Cristo: "Eu vou inverter a ordem, Eu serei um pecador, e você estará livre" Quem pode agradecer ao nosso Deus o suficiente por esta misericórdia?

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