sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Norman Douty: Gênesis 3

Começo com Gn 3. Se considerarmos Adão como o cabeça natural da raça, ou como seu cabeça federal, todos nós consideramos ele e toda a humanidade como uma unidade, em todo o relato da criação e da queda. Como resultado, o que é verdadeiro dele é verdadeiro deles. Todos os homens foram criados em Adão, e todos os homens caíram nele. Os resultados da queda são igualmente comuns a ambos. Por causa de sua ligação com ele, todos – eleitos e não-eleitos – estão envolvidos tanto na culpa de Adão quanto em sua depravação; todos estão sob a sentença de morte e corrompidos em suas faculdades. Além disso, todos estão expostos aos prejuízos resultantes da maldição imposta sobre a natureza à sua volta. Então, seja com referência à criação, queda, culpa, depravação, desgraça ou morte, Adão e sua raça constituem uma única entidade.

Mas há um outro ponto importante para a história. Há a graciosa promessa de Deus referente à Semente da Mulher Que traria libertação aos caídos (v. 15). Seguimos a interpretação usual, que entende que a semente da mulher é uma pessoa (“Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”) – Cristo. Por isso rejeitamos a opinião de que esteja falando de Cristo e Seu povo (como Owen acreditava).[1] Se a semente da Mulher é uma pessoa, pareceria necessário entender que a semente da serpente também é uma pessoa – o Anticristo (como Pink).[2] Cristo ferir a cabeça da serpente (Satanás) significa seu ato de desfazer os danos da Queda. Disso, temos aqui a graciosa promessa de Deus de libertação aos caídos.

Agora, a teoria da Expiação Limitada exige que transtornamos a harmonia da história, dizendo que esta promessa, ao invés de pertencer a eleitos e não-eleitos, como todos os outros itens, diz respeito aos primeiros somente. Mantemos que esta mesma exigência serve para mostrar a falácia da teoria. O Filho encarnado é o dom de Deus para a raça, independente de como a maioria de seus membros possa tratá-lo. Como a Bíblia é o dom de Deus para a humanidade, e os homens fariam bem se considerassem como eles lidam com ela, da mesma forma Jesus Cristo é Seu dom a todos e eles seriam prudentes se saudassem-no e considerassem-no.

Que é assim, é ainda manifesto do fato que, quando o Filho de Deus se encarnou, Ele assumiu a natureza da raça – que é comum tanto aos eleitos quanto aos não-eleitos.

Ele chegou tão perto de um grupo como do outro. A humanidade assumida foi a humanidade de ambos, e conseqüentemente Ele representou ambos. Não poderia ser de outra forma, visto que Sua era a Humanidade universal. O bispo H. C. G. Moule (1841-1920) observa em relação a isto:

“É amplamente revelado que o Filho de Deus, em eterna relação com a Encarnação e a Expiação, tem ligação profunda e graciosa, não apenas com certos indivíduos, ou partes da raça, mas com o Homem. Para Ele, como o Verbo Eterno encarnado ‘para nós homens e para nossa salvação,’ todo homem está tão relacionado que tem o direito de dizer, ‘Eu sou dessa natureza que em Cristo é unida a Deus; eu sou desse mundo humano (1Jo 2.2) pelo qual Cristo é a propiciação; eu sou dessa humanidade que Ele redimiu.’”

Compare as palavras de Moule em outro lugar:

“Quando eu falo do 'por quem' de Cristo para os crentes, de forma alguma quero dizer que não haja tal coisa como seu 'por quem' para o HOMEM.”[3]

Assim, também, o bispo Davenant:

“Não deve ser negado que a morte e os méritos de Cristo, Que tomou a mesma natureza de todos, e experimentou a mesma causa de todos, são dessa maneira, que eles podem ser anunciados, oferecidos, e pela fé aplicados a todo indivíduo participante da natureza humana.”[4]

Um outro erudito, D. M. McIntyre (1859-1938) de Glasgow, fala similarmente:

“Há um sentido geral em que o Senhor Jesus se coloca como representante da raça humana. Ele é divino, o próprio Deus do próprio Deus; por essa razão nele todos os homens vivem e movem e existem. Como o Filho do Homem Ele compreende a humanidade universal. Filho do Homem foi o título que nosso Senhor escolheu para Si mesmo.... é uma confissão pública de Sua relação com a raça.”[5]

É freqüentemente dito que Cristo tomou este título de Dn 7.13, mas não há nenhuma menção lá de “o Filho do Homem,” somente de “um como filho de homem,” isto é, de alguém que tem uma aparência humana (em contraste com as quatro bestas já descritas). Mas Cristo não apenas aparenta alguém que é humano; Ele é humano. É também freqüentemente afirmado que o título denotava “o Messias,” mas por que, então, Jesus tantas vezes aplicava-o a Si mesmo em Seu ministério, ao mesmo tempo que Ele ordenava a Seus apóstolos que não dissessem ao público que Ele era o Messias? Não, o título foi inventado por Cristo mesmo para denotar Sua humanidade, e é oposto àquele outro título, “O Filho de Deus,” que denota Sua deidade.

“A idéia da verdadeira humanidade de Cristo se encontra em sua base,” diz Westcott, e significa que “Ele foi o representante da raça toda; o Filho do Homem em quem todos os poderes potenciais da humanidade foram reunidos... Tudo que verdadeiramente pertence à humanidade, tudo, por essa razão, que pertence a todo indivíduo na raça toda, pertence também a Ele.”[6]

Ele, por essa razão, representa todo e qualquer homem. Agora, observe que Cristo declarou que foi como o Filho do Homem que Ele devia sofrer (Mt 17.12; 26.2; Mc 8.31; 9.31; 14.21; Lc 18.31-33; 22.22); dar Sua vida como resgate (Mt 20.38); e ser levantado na cruz (Jo 3.14; 8.28; 12.34).

Fonte:
http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=category&id=117&Itemid=42

Tradução: Paulo César

2 comentários:

  1. Crédulo, eu realmente esqueci de colocar. Eu postei primeiro o livro todo e depois fui postando partes do livro com as interpretações de algumas passagens específicas. Corrigindo agora.

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